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    [#05] O Final de Sagitário

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    Abel
    Líder do Conselho Supremo
    Líder do Conselho Supremo

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    [#05] O Final de Sagitário

    Mensagem por Abel em Seg Maio 02, 2016 3:39 pm

    Autocontrole.

    Regidos pelo elemento mais instável dentre os quatro existentes, Ren e Heike tinham plena noção de quão árduo o treinamento especial de ambos seria. E justamente tendo em vista as dificuldades pelas quais passaram, o quão era necessário. O aumento de cada aspecto da força dos dois dependia da capacidade de dominarem as próprias fraquezas, de forma que pudessem ser úteis no campo de batalha, sem qualquer possibilidade de perderem o controle. Sem serem abatidos pelas armadilhas da própria mente ou do mundo às suas voltas. E assim como estiveram juntos por boas partes das suas vidas, agora o objetivo era saírem mais fortes daquela viagem. Juntos.

    Foram para a residência do regente de Gêmeos vindo da mesma geração do atual Líder Supremo. O mesmo criara Ren por anos após Dimitri tê-lo abandonado, o que gerava confiança o suficiente para esperar que ele lhes desse o treinamento apropriado. Tae Yatonikia possuía uma personalidade dinâmica e forte, além de experiência de anos e uma boa relação com o ruivo; e com o pai do mesmo antes dele. Vivendo em um ambiente isolado a uma distância razoável da nave, havia espaço o suficiente para diversos tipos de atividades físicas, também.

    Foram puxados até o limite, tanto física quanto mentalmente. Cada ponto fraco e fraqueza demonstrada, fosse naquele local ou que haviam contado de experiências em batalha, foram analisadas e usadas contra eles, separadamente e em meio a treinos. Não fora fácil, e para alguém mais desestabilizado, como Heike, houve situações críticas em que o mestre de ambos quase fora morto. Indo ao cerne dos erros e buscando os acertos, no entanto, funcionava. Ao menos para um deles.

    O sagitariano sentia-se cada vez mais forte, podendo aumentar suas habilidades e seu equilíbrio mental. Contudo, a falta de estabilidade de Heike continuava a ser um problema que, mesmo com a passagem do tempo, não melhorava. Entre provocações duras, conversas, meditações, e treinos que o deixavam esgotado, nada parecia fazer efeito. A experiência traumática por qual ele passara; mudando de energia, ter sido controlado e prejudicado os outros regentes, não era algo a ser superado tão fácil. O medo daquilo acontecer de novo, também não. Era imprescindível que a energia única vinda do herdeiro de Kain fosse controlada, para que o mesmo não virasse uma ameaça novamente.

    E Ren se preocupava com essa falta de progresso. Por fora, demonstrava estar melhorando em todos os aspectos, apenas para tranquilizá-los e não causar preocupações desnecessárias para o regente de Áries. A pressão vinda da necessidade de perfeição a qual não estava acostumado se tornara uma fragilidade que o treinamento não poderia ajudar, já que não era exposta. O geminiano por si só escondia muito de Ren, apenas para não vê-lo enfraquecer por certos assuntos em particular. Eram coisas que procuraria falar após o fortalecimento completo do mesmo. Pois se ele se descontrolasse, o resultado poderia ser mais catastrófico que o de seu amigo.

    Quando vira que Heike não melhoraria apenas com o treinamento, Tae decidiu que chegara a hora de ter uma conversa com o mesmo. O contou sobre seu pai. E sobre uma alternativa onde uma de suas pesquisas o levara, em que o ariano teria que achar a própria constelação de Áries para obter tanto uma estabilidade para esta via de seu poder - ajudando-o a controlar a outra - quanto alguma sabedoria vinda daquele ser. E seguindo em uma nova direção, Heike partiu.


    Apenas os dois juntos em um mesmo ambiente remetia a velhos tempos; a quando Ren aprendia tudo que podia com Tae, já que o pai que tanto admirava - e com quem almejava se reunir - o deixara. Há tempos de solidão, mas que, neste futuro, não pareciam ter sido ruins. Contudo, o treinamento parou de fazer efeito com o Sagitário. Se antes se segurava por Heike e mostrava alguma melhora, o oposto passara a acontecer, induzindo o regresso.

    O mentor, decidindo que talvez se abrisse-se, o outro fizesse o mesmo, decidiu contar a própria história. Algo que sequer Ren sabia, mesmo tendo morado anos consigo. O antigo loiro sempre perguntara quando criança, “Por que você mora tão longe dos outros?”, “Sozinho?”, “Por que não tem mais ninguém pra brincar…?” Finalmente, respondeu àquelas perguntas.

    Muito tempo atrás, Tae fora apenas o regente de Gêmeos. Alguém que conseguira a posição pelo próprio mérito, como todos antes dele, e que compartilhava o ambiente com figuras como Abel, Kain, o avô de Heike, e os próprios pais de Ren. Não que todos os Guerreiros Zodiacais fossem amigos, já que era algo que nunca acontecia. O importante era conseguirem trabalhar juntos e cooperar, se necessário.

    Conhecera uma habitante da Nave Principal em um de seus trabalhos, que, mais tarde, se tornaria sua esposa. Não era necessário que saísse do posto que ocupava para se casar, mas após Kain ter sido renegado, acabando com uma das constelações, vira que talvez fosse hora de respirar outros ares. Havia apenas um porém. A pedra vinculada à sua arma era como uma extensão de si. Não queria deixar aquele poder para trás, mas sabia muito bem que ele deveria pertencer a um próximo regente. A ganância, no entanto, falou mais alto. Conseguira partir a pedra em dois, falsificando a metade roubada de forma que apenas percebessem quando fossem ceder o poder a outro regente. Nunca contara aquele fato a ninguém. Tinham procurado em escala mundial, e até mesmo na casa do antigo regente, já que era o principal suspeito. Mas nada fora encontrado. Conseguira se casar, e ter alguma felicidade. Tivera um filho, a qual dera o nome de Kai.

    “E onde ele está?”

    “Paciência, Ren.”

    A inquietação era típica de Sagitário, que também era o signo que regera seu filho. Então, a parte mais difícil. Kain, que se tornara um problema em escala global, e mesmo com todas as suspeitas do governo retiradas de si, desconfiava da verdade. Que a pedra estava com o geminiano. E queria obtê-la, já que era um objeto indubitavelmente restrito. Mesmo tendo o conhecido com apenas raros vislumbres na época de regente, era o suficiente para que reconhecesse uma presença completamente diferente, e carregada de uma energia extremamente poderosa, se aproximando de sua moradia.

    Tinha a família. Tinha a pedra. Tinha a própria vida. Ou desistiria de um, ou de todos. Se o antigo Serpentário botasse as mãos naquilo, sabia muito bem a força que ele obteria. Não poderia deixar. Em uma voz soturna, contara sua decisão. Não havia lágrimas restantes daquela dor para chorar. Todas tinham ido. Assim como sua família, quando na escolha mais covarde de sua vida, decidiu se proteger e fugir para um local escondido, com a fonte de poder que roubara. Poderia dar alguma desculpa, como pensar que não havia tempo de levá-los. Mas sabia o que pensara. Que eles o atrasariam. Que a pedra era mais importante. Que o futuro da humanidade, obscurecido como estava, tinha uma significância maior. Perdera a esposa e o filho adolescente, e enquanto não sobrara nada da mulher, conservara o corpo do filho em cavernas de gelo distantes de onde morava.

    Houve um breve período de silêncio entre ambos, onde Ren absorvia tantos fatos sobre alguém que achava conhecer tão bem. “Sinto muito, Tae…” E mesmo entre tantas controvérsias, nada mudaria a confiança que o menor tinha naquele homem. Era uma das pessoas importantes para si. Havia cometido erros, mas todos tinham, não? Todos que conhecia, inclusive o próprio ruivo. “Posso ver o corpo dele?” Havia pessoas que não mereciam o destino que tiveram, e ao mesmo tempo, nada garantiria suas vidas caso escolhas diferentes fossem feitas. O filho do antigo regente era uma delas. O ruivo queria vê-lo. Queria descobrir se havia uma saída naquela história para os próprios conflitos.

    Tae, entretanto, negou.

    Preferia que ninguém contemplasse a prova de seus erros. Que ninguém, além de si próprio, tivesse acesso ao que um dia fora um corpo vivo de alguém que amara. Estava ali para que nunca se esquecesse; mas Tae era o único que precisava carregar aquele fardo. E o sagitariano, naquele dia, realmente planejou respeitar a vontade alheia.
    Mas a curiosidade falou mais alto.


    Em um dia que o treinamento seria iniciado de tarde, Ren acordou assim que os primeiros raios de sol se fizeram presentes. Naturalmente ágil, não fora preciso muita esperteza para sair da casa sem que fosse notado - já que o dono da residência ainda dormia - e pegar seu cavalo para galopar em direção às cavernas mencionadas. Era uma distância maior que esperava, mesmo que o ruivo exagerasse naturalmente as possibilidades. O suficiente para mudar um ecossistema florestal para um gélido, onde o solo e cada planta existente estivesse coberta por uma fina camada de neve.

    Quando chegou, porém, o pequeno notou que não tinha ideia de como navegar por aquela gruta. Não sabia o quão fundo o corpo de Kai estaria, apenas que queria vê-lo. Deixando o cavalo na entrada, aventurou-se para dentro, o ar gélido imediatamente o dando boas-vindas. O medo que tivera de se perder, ainda que fundado, no fim fora apenas uma preocupação desnecessária. A caverna era profunda, mas linear, e cada vez mais fria conforme a adentrava. Ao final da mesma achou o corpo, deitado em um altar, lembrando apenas uma pessoa adormecida. As características de Tae eram fortes em seu filho, apesar de ter um porte relativamente menor.
    Sabia que não teria todas as respostas que queria ali. Mas olhá-lo acalmou seu espírito, e talvez, apenas talvez, teria começado e refletir no porquê de não estar sendo produtivo nos treinos, e o que poderia fazer para mudar. Em nome de quem já havia sofrido por erros antigos. E de quem ainda errava, e continuava seguindo em frente.

    Teria, se não detectasse passos de outra pessoa presente naquele lugar. Imediatamente na defensiva, o regente olhou desesperadamente em volta, congelando ao ver uma figura que nunca achava que encontraria em um lugar daqueles. No começo do corredor do ambiente em que se encontrava, lá estava. Dimitri. Seu pai. Alguém que Ren sempre admirara, mas não via há incontáveis anos. Nunca soube a razão dele tê-lo deixado, mas não achava que o fator importava, se o progenitor voltasse. Teria corrido para abraçá-lo, se a diferença do que via e do que lembrava não fosse tão aparente. Ele já imaginava que talvez encontrasse alguém diferente, pelos anos que se passaram. Mas não assim. Não sem um sorriso no rosto. Não com uma expressão cansada e resignada, que não parecia estar vendo o filho a quem dera amor por ao menos parte de sua vida.

    “...Pai?”

    “Ren, Ren, Ren. Não pense que eu gostaria de te ver agora. Eu realmente não gostaria.”
    Choque. O homem se aproximou alguns passos, olhando em volta, e logo após para o corpo atrás do ruivo. Não havia nenhuma alegria nas palavras, ou no jeito de se portar. Nenhuma leveza típica que conhecia do sagitariano mais velho.

    “O que aconteceu…?”

    “Muita coisa. E não tem um jeito de fugir, Ren. Não vale à pena você tentar. Você não vai melhorar olhando pra um corpo morto, se o seu destino é se arruinar. E eu vim dar uma mãozinha.”

    Ordens diretas de Kain. Assim como havia vendido o filho para ser o receptáculo de Lilith, não havia escapatória. O quanto mais cedo fosse possuído, melhor seria para a deusa, então o antigo Serpentário resolveu ajudá-la, ao ver uma oportunidade favorável. No fundo, Dimitri gostaria de acreditar na força mental de seu filho. De que ele poderia superar aquilo, e talvez, escapar.

    Mas não tinha capacidade de mexer um dedo para ajudar.

    Estava cansado. Desistira. Anos com influências e experiências de Kain faziam isso com uma pessoa. Já aprendera que não havia para onde fugir, se quisesse continuar prezando pela própria vida. Nerissa se fora. Ren logo iria. Seu outro filho? Nunca o vira, apesar de saber que agora tinha a posição de regente de Virgem, que nem a mãe. Então, não importava. Acabaria com a vida de um, então se preocupar com outro era perda de tempo. Seguiria as ordens, já que Kain achava que era a escolha perfeita para aquilo.

    Para quebrar de vez a mente de Ren, a quem observavam a cada momento desde que tiveram notícia - vinda de um dos experimentos voltados para recolher informações - de que saíra da segurança da nave. Também não seria um problema se livrar de Tae, mas o melhor era fazer aquilo em sigilo. Quanto menos gente tivesse chance de comunicar o que acontecera com o regente de Sagitário, mais tempo teriam. Tempo era sempre essencial, e a falta de cuidado natural de Ren o proporcionara o momento ideal.

    Já eram notáveis sinais de que o menor do local começaria a chorar. E sequer havia começado.

    “E-eu não entendo! Você não está do lado errado, não é?”


    Uma fé cega em quem amava. Dimitri também já fora assim. E tudo que fizera errado na vida, fora por características como aquela. Mostrou um sorriso sem vida para o filho, continuando no mesmo tom carregado.

    “Estou. Chato, eu sei. Também acho. E não é de agora, Ren. Desde que eu tive que te deixar. Desde antes disso, até. Mas, acho que é melhor começar do princípio. Se quiser sentar, a história vai ser longa.” Ren continuara estático, então, seguiu com as palavras. Não se lembrava de falar tanto em muito, muito, tempo. “Acho que começa comigo e com sua mãe. Éramos regentes, nos apaixonamos, e saímos dos postos quando ela engravidou, pra viver tranquilamente e criar uma família longe do perigo. Parecia que ia ter um final feliz. Mas, ela era especial. Desde que a conheci, demonstrava sinais que havia algo errado com ela. A saúde também não era das melhores, mas… Ia além. E não importava o quanto procurasse, não achava nada. Passei a ignorar os sinais e desejar que passassem, só. E continuamos felizes.” Havia dor em sua voz. Quando se tratava dela, sempre havia. “Só que ela foi adoecendo. Na segunda gravidez, quando nós três éramos uma família - e você não deve nem lembrar - a condição foi piorando. Alguma hora ela morreria, ou perderia o filho, ou os dois. Eu queria salvá-la. E… Fui até Kain. Sabendo de todas as merdas que ele tinha feito. Já ouviu falar de Lilith, não é? Nesse ponto, já deve ter. Então descobri que Nerissa, sua mãe, era pra servir de casulo pra deusa da destruição. E que a própria estava do lado dele. Coincidências… Não sei dizer se felizes ou infelizes. Fiz um trato com os dois. O primeiro filho dela se tornaria um receptáculo, no lugar da mãe. Ela recuperaria alguma da saúde, e viveria. Teria a outra criança. E eu viraria cachorrinho de Kain. Ainda tive o bônus de poder te criar alguns anos, te tirando da mãe, é claro. Eu não conseguia olhar mais na cara dela, depois daquilo. E não queria ninguém que viraria algo perigoso - nós dois, no caso - vivendo com ela e com uma criança que não tinha nada a ver com isso. Pude brincar de ser um pai feliz e viajar com o filho pequeno. Pude me enganar por alguns anos, mas minha hora acabou chegando.”

    Mas cada palavra era o equivalente a um golpe na face do mais novo. Ren já havia se ajoelhado no chão, como se as forças nas pernas vindas de diversos treinamentos tivessem desaparecido em alguns segundos. Estava funcionando.

    “Você era parecido comigo. Te mandei pra Tae na esperança de te afastar ainda mais das coisas, mas ei, qualquer um de Sagitário tentaria viver a vida fora do ninho algum dia. E você acabou regente, e pai adotivo do primeiro filho de Kain. Ninguém planejava isso. Ninguém tinha controle, também. Só acho engraçado. E, ainda mais, seu irmão nascer virginiano. Vocês se conhecem, sabia? Mesmo completamente separados, os dois se tornaram parte dos guerreiros. Seriam motivo de orgulho pra todas as familiazinhas por aí. E se for que nem a mãe, é esperto suficiente pra juntar os pedaços, então ele deve saber o parentesco que tem com você. Se você não sabe, é porque ele não gosta muito… Do seu signo, ou de você mesmo. Nerissa também não gostava de mim, no começo. Se dessem uma chance para se aproximarem, talvez conseguissem, mas… Também é tarde. Sua mãe, no fim morreu. Cuidou alguns anos do outro filho, mas como disse, a saúde dela nunca foi boa. E… Sair de casa sem falar nada, com a criança primogênita. Não é algo que deixe ninguém feliz. Se me arrependo de algo, é de causar essa tristeza nela... Eu pensei, por muito tempo, que eu poderia ter achado outro jeito. Mas não, não. Eu faria de novo. Era o que tinha. Dei uns anos a mais pra ela, e uma vida pro seu irmão. Só uma droga que tudo vá ser destruído de um jeito ou de outro. O que eu disse, Ren. Não tem pra onde escapar. Você mesmo já viu gente morrendo à sua volta. E mais vão morrer. Se te consola, não vai ser só culpa sua. Sua também, já que não é forte o suficiente. Mas é idiotice culpar uma pessoa só. Pode me culpar. Kain. Lilith. Pode tentar dar qualquer desculpa, e resistir. Mas, assim como eu, você nunca foi forte. Então, Lilith vai tomar seu corpo. Pelo menos com isso, você morre de vez. Não vai se ver matando seus amiguinhos. Otimismo, certo?”


    Tae tinha plena noção de que Ren havia se metido em algo que não deveria quando não o achou ao acordar. Nem ele, nem o cavalo. Após rondar as proximidades, lembrou-se de algo que havia negado ao garoto, dias atrás. Claro, o menor era curioso, descuidado, e desrespeitoso o suficiente para ir às cavernas de gelo ver algo que pedira explicitamente para não ver. Não seria o fim do mundo, mas teria a certeza de aumentar o treinamento como castigo. Se aquela visita o ajudasse, melhor ainda. Todavia, havia alguma inquietação no geminiano. E como não sabia a razão da mesma, preferiu encontrá-lo de vez e arrastá-lo de volta à casa o mais rápido possível.

    No meio do longo caminho para as cavernas, sentiu uma energia. Algo que nunca sentira em seus longos anos de vida. Uma carga tão poderosa, negativa e obscura que, se prezasse apenas por sua segurança, teria se afastado o mais rápido possível. Era pior do que a de Kain. Porém, vinha das cavernas de gelo. De onde Ren e o corpo de seu filho estavam. Não deixaria seu pupilo se machucar. Mas aquela energia… Fora informado por Abel, é claro, do essencial para treinar Ren. Poderia ter sido um pedido do regente, mas o fato era que teria que ser um treino voltado para um fim específico. O sagitariano precisava se estabilizar urgentemente por uma razão, e uma apenas. Não para ficar mais forte. Mas por precisar de resistência mental para que Lilith não fosse capaz de tomar o corpo do mesmo. Ren sempre chorava por coisas idiotas, fazia escândalo por menores ainda e se animava com a mesma facilidade. Era fácil de se conviver, mas possuía uma mentalidade igualmente fácil de se quebrar, se soubessem mexer nos pontos certos.

    E se a energia que sentia era um sinal de que já estavam mexendo, então estavam muito, muito ferrados.

    O caminho foi corrido até as profundidades da caverna, onde cada vez mais a energia sufocante estava presente. Não era visível, nem palpável, mas havia uma pressão imensa em cada poro da pele do geminiano, como se fosse ser destruído em um milésimo de segundo. Chegou ao local familiar onde estava o corpo de seu filho, em que duas presenças fitavam sua chegada. Uma, um velho amigo. Outra, Ren. Ou o que fora Ren. De pé, com um sorriso macabro que nunca vira, e emanando aquela energia. Lilith. Estavam perdidos. Um pouco mais que perdidos. Não sabia da história toda, como envolvia Dimitri, e da conexão com Kain. Mas, naquela instância, era um inimigo. E sabia que mesmo com toda sua força, não poderia fazer nada contra os dois. Não com Lilith presente. Morreria instantaneamente se tentasse.

    Não pareciam interessados em si. A deusa apenas virou-se, abrindo um portal escuro para onde quer que fosse, no qual entrara logo antes do regente mais velho de Sagitário. Que, em toda aquela situação, teve a coragem de mandar um aceno antes de desaparecer. Assim, se foram. Não sobrara nada de Ren. Se já havia sido possuído, estava morto. Acabara de morrer. A angústia fora forte o suficiente para que não pensasse onde deveria atirar a culpa. Para que tomasse a única decisão que poderia redimir todos os erros que já tinha cometido. Por não ser capaz de proteger ninguém, no passado, ou no presente, tinha que fazer algo drástico o suficiente. Não fora capaz de cumprir a única missão para qual o tinham designado daquela vez. E perdera outra pessoa preciosa.

    Não seria o único, com Lilith à solta.

    Conhecia um método de recuperar uma alma que havia acabado de deixar o corpo. Arriscado, obscuro, e que não seria possível sem uma canalização imensa de poder, já perigosa sem qualquer tipo de ritual. Felizmente, guardado em um pequeno saco atrelado a um cordão que usava, estava nada menos do que metade da pedra de Gêmeos. Passara a carregá-la consigo, também para se punir pelos próprios erros. Teria que deixar a energia do fragmento tomar conta de si, encantar a própria arma e atirar em um corpo sem alma. De todas as pessoas, lá estava Kai. O filho que Tae indiretamente matara. Poderia pegar duas decisões erradas e transformar em uma certa.

    Antes, só se preocupou em cumprir uma última promessa para Abel, que havia lhe enviado um dispositivo junto a Ren e Heike. Caso o pior acontecesse, era questão de pressioná-lo, que o Líder Supremo saberia que um dos dois havia saído do controle. Como já havia sido reportado que o ariano não estava mais sob seus cuidados, restava apenas uma opção a ser deduzida quando retirou o aparelho de um bolso e apertou o botão, deixando-o cair no chão da caverna em seguida.

    Focar toda a energia, mesmo que apenas de metade de uma pedra vinda de uma Constelação Zodiacal, poderia ter consequências internas e externas. Ele não sabia o que teria, mas concentrou-se, de qualquer forma. Em alguns minutos, era possível ouvir risadas altas das profundidades da caverna.

    Gêmeos possuía uma força instável. Mudança constante.

    Naqueles momentos, a personalidade de Tae se fora. Não sabia quem era. Mas felizmente, o desespero comandava o que sabia que queria fazer. Em meio a falas desconexas, risos, e gritos, a arma fora encantada com um poder imenso vindo daquela peça. Não havia mais espaço para pensar em consequências. Assim que o tiro foi disparado, a pedra se partiu em mais pedaços.

    Mas o encantamento atingiu o corpo de Kai. Isto que importava.

    Mesmo quando todo o interior de Tae sofreu uma pressão imensa com a mistura da energia e de um ritual proibido.

    Em seguida, as paredes da caverna manchavam-se de sangue.


    Um fato continuava a incomodar Rin após ter voltado de sua busca pela pedra. No mesmo local em que havia visto algo como o espírito de sua mãe, a quem sabia muito bem estar morta, havia visto Ren. Fora informado que ele estava treinando em algum lugar distante com Heike, já que, nos turnos separados de treino no exterior da nave, era a vez deles saírem. Achava que teria que guardar esta inquietação no fundo da mente, já que o máximo que poderia fazer era perguntar para Abel sobre o progresso de ambos; não esperava que, assim que voltasse para a Nave Principal, seria convocado para uma missão que tratava justamente do assunto.
    O problema era extremamente conciso, ao mesmo tempo em que tinha implicações pesadas para tudo o que conheciam.

    O Líder Supremo havia recebido há minutos atrás um sinal do mentor de ambos, tendo dado um aparelho para Tae sinalizar caso algo extremo acontecesse. Heike já havia deixado a casa do mesmo, então, significava que Ren fora possuído. Por Lilith. Abel aguardaria notícias de Tae, mas enviaria alguém pessoalmente para analisar a situação e ajudá-lo a fugir e se recuperar, se necessário. Ninguém sabia como a deusa da destruição agiria. Se encontrasse o geminiano inteiro - ou no melhor estado possível -, era para pegar um relatório completo do que ocorrera. Caso estivesse morto ou desaparecido, era para fazer um relatório baseado no que encontrasse.

    Junto à ordem, uma instrução que recebera de Abel era curiosa. “Há uma pequena chance de encontrar o Ren… Diferente.” Se o corpo de seu irmão fora tomado e o encontrasse, não era algo óbvio? Mesmo com a tendência a ser avoado vinda do signo do Líder, ele não tendia a constatar coisas do tipo em ordens formais. Havia algo a mais, então? Uma possibilidade dele vivo? Ou…?

    Um frio antecipado percorrera sua espinha ao imaginar o que poderia encontrar lá.
    Mas focar-se no futuro era inútil, mesmo estando em uma situação mais perigosa do que a anterior. E quase ninguém saberia, por enquanto. Se concentraria na missão e em encontrar Tae, pelo menos, à salvo. Se estivesse morto, em coletar dados do que acontecera no local. Fora uma viagem relativamente curta até a casa do antigo regente de Gêmeos, feita em uma das menores e mais rápidas naves de transporte. Passou-se cerca de uma hora até que pousasse próximo de uma casa desconhecida, cercada por uma floresta e uma área montanhosa.

    O primeiro passo era a casa. Em uma das poucas vezes da vida, não se preocupou em bater na porta antes de entrar na moradia destrancada. Absolutamente ninguém. E nenhum sinal de conflito. Nada havia ocorrido ali, então. O que tinha em volta era uma paisagem natural, e nenhuma pista gritante para encontrar o que fosse. Após certo tempo de investigação nas proximidades, contudo, achou pegadas de cavalo enfraquecidas na terra, que se perdiam na grama da floresta. Se lembrava bem, Ren tinha um cavalo de estimação. Deveria seguir por ali, mas a área ainda era extensa o suficiente para poder errar se apenas prosseguisse em linha reta, já que o cavalo poderia ter virado em qualquer direção.

    Como não havia nada para servir de auxílio, iria para o plano B.

    O dispositivo dado pelo Líder Supremo à Tae, mesmo não sendo nada além de um sinalizador, emitia um sinal de GPS justamente para poderem encontrá-lo em caso de dificuldade. Checou pelo próprio comunicador qualquer sinal nas proximidades, e quando não obteve nenhum, retornou para a nave em que viajara, utilizando o dispositivo próprio da mesma que pesquisava um raio de distância maior em menos tempo. Foram apenas alguns segundos até o loiro encontrar um sinal, vindo de uma área longínqua. Passou mentalmente pelas opções que tinha. Poderia chegar rápido, chamando atenção para si caso houvesse algo no local, mesmo que a nave fosse pequena e silenciosa. Ou poderia percorrer uma grande distância a pé, e reduzir riscos. Mas, sem saber o que acontecia por lá, urgência era preferível. Se Tae estivesse em perigo, ou gravemente ferido, tinha que chegar o mais rápido possível. Iria com a nave, então.

    Graças à grande velocidade do transporte, em pouco tempo o regente de Virgem chegava à área onde o sinalizador de Tae deveria estar. Aparentemente, o objeto se encontrava dentro de uma caverna logo afora da floresta congelada. A roupa que usava, felizmente, adaptava a temperatura do próprio corpo, fazendo fatores externos não serem um problema. Havia uma luz tênue vindo de dentro da caverna; os próprios cristais de gelo provendo uma iluminação natural ao ambiente. Inicialmente, não parecia haver som algum no local. Mesmo após adentrá-la com cautela, um silêncio esmagador era uma das únicas coisas que captava. Chamar por Tae também não era uma boa opção. E mesmo na quietude, percebia resquícios de uma energia que nunca sentira antes. Não era algo bom. “Maligno”, também não definiria. Era pior, ainda que não a sentisse em sua totalidade. Se Lilith estivera lá, talvez fosse o suficiente.

    Adentrando ainda mais o ambiente, passou a depender apenas da iluminação natural do gelo, ainda que tivesse uma fonte de luz que poderia usar caso precisasse. Andou pelo caminho único das profundidades da montanha, até finalmente detectar algo diferente no local. Um som. Não entendia muito bem do que, exatamente. Parecia um animal ferido. Ou uma pessoa…? Os passos do loiro se apressavam conforme o ruído ficava mais aparente, até que enfim começou a correr quando chegou ao ponto de que não ouvia apenas um lamento. Gritos, também. Alguém deveria estar extremamente ferido.

    Finalmente viu que, à certa distância, as paredes se abriam em um espaço mais amplo. Apenas freou o próprio passo por ver uma cor diferente dos tons esbranquiçados e azulados aos quais se acostumara, mesmo a alguns metros consideráveis do local.

    Vermelho.

    Os gritos e lamentos de dor, no entanto, não cessavam, assim como as próprias passadas. Algo de ruim havia acontecido ali, de fato. Sabia que Ren fora possuído, mas não tinha ideia da situação que o esperava. Sangue, espalhado pelo chão e pelas paredes. Não apenas o fluído, todavia. Com seu conhecimento médico, podia nomear facilmente uma diversidade de orgãos, tripas, pedaços de ossos e membros espalhados pelo chão. Mas nenhuma experiência que tinha com o trabalho pôde impedir o próprio estômago de se revirar com a visão, o obrigando a parar e respirar fundo, analisando o todo da cena.

    Não estava em perigo imediato, mas não era motivo para relaxar. Alguém havia literalmente… Implodido? Não parecia ter sido desmembrado parte a parte. Se o corpo de Ren fora tomado por Lilith, não era ele. Então, muito provavelmente, e batendo com o aviso para Abel e a falta de presença na casa alheia… Era Tae. Localizou o pequeno dispositivo que seguira até ali em meio a alguns dos restos mortais do mesmo. Poderia não conhecê-lo, mas também possuía empatia o suficiente para pensar que ninguém, absolutamente ninguém, deveria morrer daquela forma. Ao menos, deveria ser rápido.

    Rapidamente, e com uma pequena gratidão pelo fato, foi distraído de sua observação pelo barulho que ouvira anteriormente. Sabia muito bem que não deveria esperar algo bom. No entanto, a visão que teve ia novamente além de suas expectativas. Lembrava um ser humano. Deveria ser um, se fosse investigar propriamente. Foram raras as vezes em sua vida que vira um tão deformado. Uma poça de sangue saía diretamente de baixo do corpo. Pedaços da pele haviam se desfeito, deixando a carne viva exposta. Havia ossos fora de lugar, e fraturas visíveis, também. Se eram raras as vezes que vira alguém em um estado tão caótico, era a primeira que vira um ser humano ainda vivo naquela situação.

    Mesmo levando em conta as deformações, não reconhecia aquele corpo. O rosto estava virado para baixo, e parecia que o homem havia caído de um pequeno altar em meio ao final da caverna. Um sentimento profundamente desagradável tomava conta de Rin ao se aproximar da pessoa ferida. Não pelo estado da mesma. Por temer que, mesmo tendo o poder para curar qualquer ferida, fosse tarde demais. Ainda assim, poderia tentar. Ajoelhou-se ao lado do outro, ignorando qualquer sujeira e sangue naquele local, como só conseguia fazer naquelas horas, e virando-o. O rosto estava coberto de ferimentos, e a parte que não estava, era apenas carne. Um grito sufocado irrompeu da boca alheia assim que o tocou, mas não poderia focar-se naquilo. Tudo naquele corpo deveria doer. O foco para curar o que parecia mais grave foi imediato, podendo sentir a energia familiar nas próprias veias mais forte que o normal.

    E não funcionava. Absolutamente nada.

    O que diabos estava acontecendo? Era por ser um ataque de Lilith? Quem era aquele? Era novo demais para ser Tae, a quem já associara as tripas atrás de si. O que…?

    Teria continuado tentando, se olhos desfocados e sanguinolentos não se abrissem e se virassem em sua direção. O sofrimento era tão claro nos orbes que parecia não haver lugar para qualquer outro sentimento ali; e ainda assim, um pequeno reconhecimento passou pelas mesmas. “R-Rin?” Sequer podia chamar aquilo de voz, da forma que saíra. Não conhecia por nome ninguém com feições parecidas com aquela. Então, o que…?

    De repente, entendeu. Havia apenas uma opção.

    “Ren.”

    Um Ren diferente, como Abel avisara. Algo que tinha pouca probabilidade de acontecer. Não entendia como, ou porquê. Se fosse divagar, talvez chegasse à conclusão que Tae e Abel tinham chegado a um entendimento quanto àquilo, e talvez fosse algo para manter o sagitariano vivo após Lilith tomar de vez o corpo alheio. Mas não estava pensando tão além. Estava apenas certo de que aquele era seu irmão. Um irmão que sequer gostava. Sequer reconhecia como tal. Sequer deveriam saber do laço sanguíneo um com o outro. E ele estava em outro corpo, como se… A alma tivesse trocado de lugar. Mas, se a alma rejeitasse o corpo… Magia não poderia curá-lo, então? Fazia sentido.

    Não deveria se sentir mal com a morte de alguém que mal conhecia, então não esperava o aperto no peito, além das sensações ruins prévias. Não prestava atenção naquilo, porém. “Ren... Escute.” O tom do virginiano era tranquilizador, como se estivesse falando com uma das crianças do hospital. “O inimigo teve o que queria. Nós ainda vamos lutar. Nós, sem você. Acho que Tae tentou te salvar, e… Não deu certo. Não consigo fazer nada quanto a isso, também.” Forçava um pequeno sorriso ao próprio rosto, caso Ren estivesse realmente conseguindo focá-lo. Disfarçava o incômodo imenso que era ter noção da própria inutilidade. Não chegar a tempo de fazer nada não era culpa sua. Nem não poder curá-lo. Mas queria, com a maior sinceridade que possuía, poder fazer algo. Impedir a morte de alguém que estava morto, entretanto, não era possível. E sempre fora alguém que aceitara a realidade imediata do que acontecia à sua volta, mesmo que não o fizesse feliz.

    “Você vai ver nossa mãe logo. Você não passou muito tempo com ela, não é?” Enquanto falava, usava outra vertente de sua magia para construir algo do chão da caverna. Uma faca afiada, ainda que feita de terra. A mão que a segurava tremia, e isto, não se preocupou em tentar parar. Havia acabado de achar a pedra da constelação de Virgem. Já fora dito a si próprio que tudo bem ter emoções, às vezes. Que deveria. Não adiantava falar que tudo poderia ter sido diferente. Que queria conhecê-lo melhor. Seria uma mentira. Seria mesmo, para estar afetado daquela forma…? Não importava. Já havia perdido uma pessoa da família muito mais importante para si. Talvez estivesse infeliz em ter que fazer outra seguir o mesmo destino. A última coisa que falou, antes de descer a arma em um arco limpo, foi um arrependimento que sabia ser sincero.

    “Desculpe. Por não te contar… E por isso.”


    O acontecimento e as condições do local foram reportados a Abel, junto a detalhes da missão do regente de Virgem. Amostras do corpo de Tae também foram levadas à nave, confirmando a morte do antigo regente de Gêmeos. Quando ao corpo que Ren tomara, Rin descobrira pertencer ao filho do mesmo. Neste caso, o enterrara na floresta do lado de fora das cavernas de gelo. Não havia nada a se conservar no local. As cavernas, e a casa, teriam uma última investigação por  uma suspeita de um crime antigo que poderia ter sido cometido por Tae, e seriam esquecidas.

    Já na nave, uma reunião fora convocada com os Guerreiros presentes, para que soubessem da morte do regente de Sagitário, e que a vaga estaria aberta. Ninguém ali parecera particularmente afetado e a única pessoa que estaria, se encontrava em uma viagem de treino.

    Não houve maiores explicações. Sobre a possessão de Lilith, ou como Ren morrera. Sequer a causa da morte fora explanada, já que não poderia ser explicada sem o resto dos fatos.

    Foram apenas deixados para aceitar a realidade que tinham perdido outro companheiro.

      Data/hora atual: Dom Dez 17, 2017 10:47 am