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    [#02] Turno livre - Tribo de Nero

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    [#02] Turno livre - Tribo de Nero

    Mensagem por taurusnero em Qui Jan 01, 2015 7:53 pm

    Sua irmã era uma carrasca. Pelo menos esse era o pensamento que tinha a cada fim de sessão de treinamento. Era incrível como a mulher conseguia fazer todos os músculos de um guerreiro como Nero doer, aliás, era extraordinário, afinal, o taurino nunca se sentira tão tentado a querer deitar no chão e ficar por lá mesmo após exercícios físicos, e aquele era o sentimento que vivia consigo desde que aceitara os ensinamentos da mais velha e seu modo de treinar. Todos os dias realizava atividades que humano comum algum poderia fazer sem acabar seriamente machucado. Todos os dias se deparava com uma série de situações que o deixariam de queixo caído, se não fosse obrigado a imediatamente reagir, já que Órion era tudo, menos paciente. E todos dias se via tão cansado ao ponto de quase dormir em pé, antes de ser expulso com reclamações da mulher, que o chamava de fraco, frango, e todo e qualquer elogio que diminuísse sua força.

    Com diversos suspiros, algumas reclamações de dor, e um caminhar nada firme, Nero chegou à sua tribo após cruzar a enorme distância entre a floresta que a sua irmã vivia e ela. Órion provavelmente ria de si, do conforto de sua recém-construída residência, enquanto imaginava a expressão que o irmão mais novo fazia ao percorrer um caminho tão longo mesmo com toda a dor que já sentia. O melhor, era que sempre que chegava pela manhã para encontrar a mulher, deparava-se com um sorriso enorme e desdenhoso, além de tapas efetivos onde mais doía. Para alguém que não via, ela parecia saber muito bem onde atingir.

    De qualquer forma, estava realmente cansado. O suficiente para que resolvesse fingir que não havia nada de estranho em seu relacionamento com Heike. De alguma maneira, e não sabia exatamente como, criara uma singela desconfiança ao notar o ariano muito próximo das mulheres de sua tribo. Não alimentaria aquilo em outra instância, porém notava o quanto ele se divertia junto a elas, e o tempo que gastava em conversas estranhas, principalmente quando o guerreiro não poderia entender qualquer coisa que elas falavam. O que ele fazia enquanto estava fora? Aquilo sempre passava por sua mente, por mais que tentasse evitar. E se crucificava todos os dias, afinal, não havia prometido evitar tais pensamentos?

    No entanto, ao mesmo tempo que estava desconfortável, sentia que o ariano também não parecia muito feliz consigo, e as expressões que ele mostrava para si, apenas deixavam o taurino muito menos disposto à lidar com a situação. Esperava mesmo que aquele não fosse um sinal de que o mais novo arranjara outra forma de se divertir, ou se arrependeria amargamente de ter permitido a presença dele naquele ambiente. Ou talvez já se arrependesse, quem sabe.

    Grunhiu, finalmente adentrando a moradia que fora cedida a si como o novo líder, e à qual dividia com o outro guerreiro. Suas roupas foram ganhando o chão rapidamente, ao mesmo que caminhava para a cama escondida atrás de um tecido delicado. Já havia tomado banho, afinal não conseguia se sentir bem com o corpo todo imundo após a sessão de treinamento, e fora quase manhoso ao deixar os olhos parcialmente fechados, antes de afastar a cortina do seu caminho. Porém, por mais que estivesse sonolento, os olhos do taurino se expandiram um tanto após notar a cena que havia em sua frente. Heike estava sentado sobre o conforto do móvel típico de sua tribo, aparentando um singelo cansaço e, em seu colo, uma criança dormia tranquilamente. Tudo bem, a criança era fofa, e o ariano parecia contente naquela situação, era uma cena bonita de se ver... Porém, não havia algo de importante que deveria questionar?

    De onde diabos ele havia tirado aquele menino?
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    Re: [#02] Turno livre - Tribo de Nero

    Mensagem por Heike_Walker em Qui Jan 01, 2015 10:28 pm

    O dia de Heike, como a maioria dos outros que tivera ali, começara extremamente pacato. Tedioso até. O jovem adorava a natureza e a liberdade de fato, mas não conseguia ficar muito tempo parado.

    Foi com certa dificuldade que se adaptou à vida na tribo. Sem a presença de Nero para lhe fazer companhia sequer conseguia se comunicar com os outros. Inicialmente tentara ajudar na caça e no trabalho para se ocupar, porém não fora muito bem recebido pelos homens que o encaravam feio e o ignoravam. Um ultraje, era irritante receber esse tipo de tratamento quando passou tanto tempo dando ordens, sendo admirado e respeitado. Logo tentou participar de algumas lutas violentas que costumavam ocorrer entre os jovens rapazes, mas não queria bater naquelas crianças até deixá-las inconscientes como era o costume entre eles, então acabou desistindo também. Era tão frustrante. E o pior de passar o dia sozinho sem poder fazer nada era que mais a noite quando Nero chegava, o maior estava tão acabado que mal conversavam. Heike estava longe de ser alguém mimado e carente de atenção que iria ficar irritado por não ter o suficiente, entendia que o líder estava ali para treinar e melhorar, e ficava feliz de ver ele chegar esgotado afinal era uma prova de que sua irmã era boa o suficiente para deixar um guerreiro como o taurino naquele estado. Estava excitado para ver o quanto ele estava melhorando. O ponto é que não entendia exatamente a necessidade de estar ali. Odiava se sentir inutil. Ainda que tivesse prometido a Nero que o acompanharia onde quer que fosse, na situação atual considerava que seria muito melhor estar na nave treinando e estudando novas táticas de batalha e terreno, do que estar ali sem fazer nada. Não era nenhuma surpresa o mau humor decorrente de tal coisa que piorava a cada dia com o moreno. Sentia falta dele e se irritava por ter que estar ali se não era necessário.

    É claro que eventualmente acabou conseguindo se comunicar de alguma maneira com quem estava interessado nele: as mulheres. Não era como na nave mãe, que a maioria das mulheres se aproximavam com segundas intenções, ali o ariano era admiado como algo nunca visto antes. As mulheres, muitas maiores que ele, estavam sempre risonhas e bem humoradas enquanto falavam alto e faziam 10 coisas ao mesmo tempo. Eram guerreiras, mãe, donas de casa, artesãs, curandeiras, fazendeiras e caçadoras. Heike nunca ficara tão admirado com a força e competência de um grupo de mulheres antes. Acima de tudo, ela ainda arrumavam tempo para serem asseadas, sempre enfeitando tudo. Por isso e por ser muito bem acolhido entre elas, logo o loiro passava o dia com elas com prazer, se divertindo ainda que não entendesse nada. Já tinha aprendido a cozinhar algumas comidas típicas do local só de observar, era enfeitado todos os dias e parecia haver uma competição em quem tinha mais a atenção do ariano. Elas ensinavam algumas palavras e coisas básicas, e pouco a pouco introduziam o jovem no cotidiano da tribo, até mesmo lhe dando algumas tarefas simples.

    Ao mesmo tempo que a falação constante, as risadas altas e aquela mania insistente de invadir seu espaço pessoal eram engraçadas, algumas vezes acabava ficando sem paciência e precisava de um tempo só, que gastava se afastando um pouco da tribo até a clareira em que sua moto estava escondida e passava alguns minutos ali fumando ou lendo. A tranquilidade lhe fazia bem também. Mas naquela tarde sua paz foi interrompida por muitos gritos e risadas, e logo notou um bando de crianças um pouco distantes perto das árvores. Assumiu que brincavam, mas dando uma segunda olhada reparou que elas jogavam pedras em algo. Intrigado, levantou-se e se aproximou sem pressa e em silêncio para ver o que tanto as agitava, e para sua surpresa elas atacavam outra criança bem menor que estava encolhida perto de uma grande raiz, com lágrimas aos olhos. Espantando os pequenos agressores sem muita dificuldade, foi até o menor e reparou na quantidade absurda de feridas que existiam em seu corpo. Preocupado, Heike puxou ele e finalmente pode perceber o quanto era pequeno.

    O garotinho esperneou e gritou entre raiva e medo, mas com o aperto firme do regente em seu pulso e pela fraqueza que aparentava tão ferido e magro, logo se cansou o suficiente para não ter mais força para se sustentar em pé. O ariano não tinha o menor jeito com crianças e tinha a paciência zero com elas, porém não poderia deixar o garoto sozinho ali naquele estado quase desmaiado. O pegou no colo sem se importar com o sangue e terra que lhe sujariam e seguiu para o centro da tribo procurando a mãe ou alguém que pudesse cuidar dele. Mas para sua surpresa, assim que as mulheres reunídas o viram com a criança no colo, fecharam a expressão e ignoraram os apelos do ariano. É claro que não entendiam o que ele dizia, mas esperava que elas tomassem alguma atitude vendo uma criança tão pequena sangrar tanto. Estava errado, elas o ignoraram e voltaram a conversar e rir como se ele não estivesse ali. Heike ainda ficou olhando para elas furioso, até que uma menina de 14 anos que tinha o seu tamanho, a mais gentil e apegada ao loiro, apenas apontou discretamente para um conjunto de ervas que crescia no canteiro proximo que cultivavam alguns vegetais. Praguejando, o ariano foi até lá e praticamente arrancou a muda inteira, então saiu pisando duro até o local que estava vivendo com Nero. Já estava ali a tempo o suficiente para entender que devia passar aquelas plantas na ferida da criança, então o deixou na cama e com gestos brutos foi pegar água para limpá-lo e para poder misturar um pouco as folhas amassadas. Depois de limpar todo o sangue seco e sujeira, com cuidado o jovem aplicou o líquido espesso num dos machucados, e o menino que anteriormente parecia dormir começou a gritar e espernear, tentando fugir dali. A partir disso o primeiro regente passou por algumas horas de inferno pessoal até que conseguisse aplicar o remédio improvisado em tudo, enfaixar e vestir ele com uma camisa grande. Ao fim do dia, estava exausto e o pequeno finalmente dormia no aperto firme de seus braços.

    Ainda estava preocupado, mas se encontrava contente por conseguir cuidar daquela criança e por ele finalmente estar dormindo, podendo assim ter um pouco de paz. Observava ele atentamente, enquanto fazia carinho em seu cabelo loiro cortado de forma tão irregular e cheio de falhas. Era um contraste interessante com a pele tão escura. A curiosidade do porque ele estar sendo atacado e ninguém se importar queimava em seu peito.

    E foi naquele estado que se deu conta de que Nero estava em pé a sua frente, parecendo acabado e confuso. Estava tão distraido que sequer notou ele entrar, e agora não sabia exatamente o que dizer para explicar aquilo.

    - Er.. Oi.
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    Re: [#02] Turno livre - Tribo de Nero

    Mensagem por taurusnero em Qui Jan 01, 2015 11:09 pm

    Hm... Oi. Se chegou a cogitar dar qualquer resposta digna ao cumprimento de Heike, Nero falhara miseravelmente ao simplesmente imitar a saudação e continuar a fitar a cena diante de si com uma clara confusão moldando sua face. Era naturalmente devagar - e aquele já era um fato bastante conhecido pelo guerreiro diante de si. Cansado, então, era quase como se não funcionasse. Por isso, por mais que tentasse compreender adequadamente o que ocorria, tudo que o guerreiro maior pode fazer fora coçar a cabeça demoradamente, lançar um olhar perdido por todas as partes do quarto e depois voltar a encarar a cena, quase como se alucinasse. Era até imbecil de sua parte cogitar rapidamente que a criança poderia ser fruto de alguma coisa que Heike houvesse aprontado, mas não fazia sentido e o pensamento simplesmente fugiu de sua mente no momento seguinte.

    Em silêncio, o taurino deixou o corpo pesar ao lado do ariano em um gesto cuidadoso, já que não queria despertar a criança. Seu tronco se dobrou até que estivesse praticamente colado nas pernas, e sua face se colocou diante da adormecida, assistindo o menininho em seu sono por instantes demorados. Por mais que estivesse devagar, Nero não demorara muito para perceber as condições do garoto e enfim compreender um pouco do que poderia ter acontecido. Como não perceberia? Aquele menino era de sua raça, de sua tribo, sua fisionomia deixava tal fato claro, mas era diferente. Os fios loiros não eram normais, assim como não era normal ter tantas cicatrizes e machucados pelo pouco que podia ver do corpo pequeno. Fungou, e pode absorver o odor das plantas utilizadas para tratar ferimentos, antes que fechasse os olhos por alguns instantes demorados.

    Nero sabia o que era aquilo. O guerreiro trincou os dentes e deixou os olhos se mostrarem novamente, antes que voltasse à postura convencional. Ainda sem dizer qualquer coisa mais, a mão grande se levantou, e os dedos tocaram levemente os fios loiros do menor presente, antes que os levasse aos loiros do companheiro, afagando-os de forma tranquila por breves instantes. Sua expressão era amena enquanto fitava Heike, quase agradecida, por mais que não percebesse que a fazia. Ninguém te ajudou, não foi? Perguntou, levantando contra a vontade de seu corpo cansado, e para que observasse o que sobrara das plantas que o mais novo usara. Ele precisaria usar mais algumas vezes antes que as feridas se curassem completamente... Durma, eu irei preparar um pouco mais de remédio antes de deitar.
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    Re: [#02] Turno livre - Tribo de Nero

    Mensagem por Heike_Walker em Sex Jan 02, 2015 12:14 pm

    Poderia enfiar a mão na casa do moreno pela lerdeza se não estivesse exatamente do mesmo jeito. Dessa forma não fez mais do que suspirar vendo ele ter aquelas reações que, para o moreno, eram exageradas. Queria entender o que infernos se passava pela cabeça do maior ao coçar a cabeça e olhar todo o quarto daquele jeito imbecil, mas permaneceu em silêncio até que ele se aproximasse.

    Pelo menos não precisou avisar para que ele não fizesse barulho quando o guerreiro se apoiou na cama sem produzir som algum e fitou o pequeno de perto. Era impressionante para o ariano, agora que podia comparar com alguém, perceber a diferença de tamanho. O menino era mesmo minúsculo perto do taurino.

    Viu a calma que ele observava a criança e sorriu breve sem entender o motivo. Mas logo o guerreiro se levantou com a expressão dura, que logo suavizou ao fazer um carinho no pequeno. Em seguida, Heike foi alvo dos dígitos de Nero e apesar de ficar envergonhado com a demonstração de afeto conteve a língua ferina ao ver a expressão calma e grata presente em sua face.

    Não. Ninguém sequer prestou atenção. Sei que sua tribo é rígida quanto a formação dos guerreiros, mas essa criança ainda é muito pequena pra isso, não? Ele é só carne e osso. - Comentou, apertando o corpo adormecido levemente. - Tinha que crescer e ficar um pouco mais forte antes de deixarem ele se virar no meio das outras pestes assim. - Resmungou, alheio ao real motivo de deixarem ele apanhando e sofrendo sem ligarem.

    E senta essa bunda enorme na cama agora ou jogo essa criança na sua cara. - Ameaçou num fio de voz, olhando o guerreiro com raiva. Podia notar o estado do moreno e ainda que adorasse mandar ele fazer as coisas sem se importar com seu bem estar, realmente preferia que ele descansasse o suficiente para poder treinar bem no dia seguinte. - Foi eu que arrastei essa peste pra cá e fiquei a merda do dia inteiro atoa, eu cuido. Além do mais vou deixar pra passar mais daquilo depois que ele acordar e comer alguma coisa, e isso não parece que vai acontecer tão cedo, já que ele apagou agora a pouco. - Finalizou num tom de quem deu a palavra final e era melhor ser obedecido.
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    Re: [#02] Turno livre - Tribo de Nero

    Mensagem por taurusnero em Dom Jan 04, 2015 6:28 pm

    Como suspeitara, Heike não compreendera o motivo real do menino ser maltratado como foi. E não havia como o ariano saber, afinal, nunca lhe explicara nada sobre sua vida naquele ambiente, ou o porquê de ter passado boa parte de seu tempo complexado com algo tão simples como a cor de seus olhos. Não contara sobre sua infância, sobre o que fizera, sobre os costumes de sua tribo... Na verdade, estava sendo um péssimo companheiro. E chegara a tal conclusão repentinamente, ao que ignorava a ameaça do mais novo.

    Porém, por mais que não tivesse prestado atenção no loiro, Nero não o desobedeceu completamente. As ervas foram abandonadas e até chegou a se aproximar da cama. No entanto, não o fizera para se colocar sobre o conforto do móvel, e, sim, para descer o corpo até estar de joelhos e puxar uma das bagagens que trouxeram. Lembrara de algo que havia pedido ao escorpiano antes da viagem, algo que talvez fosse um pouco mais eficiente do que as ervas conhecidas por um povo tão atrasado. Lavi tinha preparado esses remédios. As embalagens tem indicações. Talvez sejam úteis. Falou de forma desajeitada, cansado demais para conseguir traduzir seus pensamentos adequadamente nas palavras que aprendera após sua fuga. Fora só então que se erguera e voltara a sentar na cama com cuidado, uma das mãos escorregando pelo próprio rosto em uma tentativa de despertar um pouco.

    Precisamos conversar. Talvez amanhã seja melhor ir comigo para a casa de Órion. Murmurou, provavelmente embolando algumas palavras, mas seu olhar deixava claro que aquele pedido era algo que gostaria muito que Heike aceitasse. A casa de sua irmã era distante, daria tempo de explicar tudo que o outro precisava saber. E por mais que confiasse no ariano para proteger o menino, Nero não queria que ele tivesse que passar por situações desagradáveis sem ao menos entender o motivo das mesmas. Por fim, não queria assustá-lo com sua seriedade, então acabou suavizando a expressão, antes de fitá-lo com um ar levemente divertido. Tenho certeza que irá gostar dela.
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    Re: [#02] Turno livre - Tribo de Nero

    Mensagem por Heike_Walker em Dom Jan 04, 2015 7:46 pm

    Observou o moreno com o olhar estreito enquanto ele parecia processar o que lhe era dito, mas acabou sorrindo vitorioso ao que ele deixou as folhas grandes onde estavam e se abaixou para pegar ago em baixo da cama. Ele tinha trago remédios da nave. Pelo jeito o líder ainda conseguia pensar mesmo estando tão cansado e o ariano agradeceu mentalmente por isso. Seria extremamente mais fácil cuidar dos ferimentos do menino com aquilo e não precisaria travar uma pequena guerra com ele. Se tinha uma coisa que odiava, era birra de criança.

    Vão ser sim. - comentou, desviando o olhar para a criança no colo e abrindo um pequeno sorriso contente antes de voltar o olhar para o guerreiro que agora se sentava na cama. - Obrigado.

    Mas o sorriso, ainda que suave, acabou se apagando ao ver a seriedade nas palavras e no olhar alheio. Havia feito algo de errado, ajudando aquele garoto? Era como estar vendado pisando em ovos ficar num lugar que não entendia nada. Não queria acabar piorando tudo quando só tentou ajudar, mas afinal tinha que se lembrar que era o companheiro do líder daquela tribo tão exótica. Será que tinha ofendido alguém sem saber? Esperava que não tivesse passado por cima de nenhuma tradição que fosse causar problemas a Nero. Mas suas preocupações ao ver ele mencionar sua irmã de um jeito levemente divertido, desapareceram.

    Sua expressão se iluminou por um momento e logo ficou excitado ao poder conhecer quem treinava ele. Honestamente, quando o taurino sumiu a primeira vez e depois explicou o ocorrido, Heike nem criou experanças de conhecer a guerreira. Não ia se meter. Mas ter a oportunidade agora o deixava contete. Talvez até pudesse treinar junto, um pouco? Criando leves esperanças, inclinou-se na direção dele com cuidado e deixou uma mordida sem força em seu maxilar, murmurando em seguida. - Já estou ansioso pra finalmente ver quem consegue te deixa tão acabado assim.
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    Re: [#02] Turno livre - Tribo de Nero

    Mensagem por taurusnero em Dom Jan 04, 2015 8:35 pm

    Um sorriso breve passou pelos lábios do taurino ao que sentiu o maxilar ser mordido daquela forma suave, e ao perceber a animação do ariano. Sim, aquilo era muito melhor do que a expressão que ele carregara no momento anterior, muito melhor do que qualquer possível preocupação ou confusão que pudesse ter causado ao mais novo por suas palavras soltas. Somente não tinha forças para conversar sobre aquilo naquele instante, afinal, estava cansado demais até para se aguentar sentado propriamente.

    Ainda com a expressão suave, o guerreiro estendeu suas mãos para que pudesse retirar a criança cuidadosamente dos braços de Heike, apoiando-a contra seu peito, antes que, com a mão livre, pudesse puxar o outro guerreiro para perto também, induzindo-o a deitar parcialmente apoiado em si, enquanto o menino dormia sobre seu corpo. Imaginava qual seria a reação do pequenino ao perceber que não estava mais no colo do loiro, e, sim, sobre alguém da própria tribo que o ignorou e abandonou. Talvez se sentisse minimamente aceito? Ou talvez explodisse em raiva... Nero iria descobrir pela manhã. Naquele instante só queria dormir, algo que demonstrava perfeitamente com os bocejos e o olhar cansado que lançava ao companheiro. Ela é uma monstra. Não resistiu a resmungar, no entanto, fechando os olhos e grunhido as palavras em meio a uma singela careta. Você vai ver. Um ogro.

    Nero suspirou, cada pedaço do seu corpo parecendo amolecer em contato com a maciez do móvel, e relaxado pelo calor e presença do ariano. Também era engraçado sentir o conforto que o recém-chegado trazia a si, apesar de ter a certeza de que acordaria babado, graças à forma bagunçada com que ele se espalhava. Situação engraçada. Riria, se não estivesse cansado demais e não tivesse a certeza de que incomodaria o menino, então apenas se deu o direito de virar a face o suficiente para que pudesse depositar um beijo breve contra a testa do loiro, murmurando um boa noite em seguida.
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    Re: [#02] Turno livre - Tribo de Nero

    Mensagem por Heike_Walker em Seg Jan 05, 2015 10:55 pm

    O taurino sorriu de um jeito suave e antes que pudesse notar suas intenções, tivera a criança tirada de seus braços. Por um momento o fitou alarmado, sem saber exatamente o que fazer em meio a preocupação. Não que achasse que o outro machucaria, longe disso, só não entendia a necessidade de tirá-lo de onde estava. Mas a situação se seguiu tranquila e Heike não evitou sorrir com a cena, seu companheiro segurando o pequeno daquele jeito protetor, ainda que cansado. Assim, ajeitou-se ao lado dele e permitiu-se relaxar, também pensando em como a criança iria reagir na manhã seguinte.

    Um ogro, huh? Parece ótimo. - Murmurou divertido, bocejando e se apertando um pouco a ele ao sentir o beijo na testa, virando e escondendo o rosto. No conforto da cama com os dois e no silêncio da tribo pela noite, acabou apagando pouco tempo depois em meio aos pensamentos em relação a como seria o outro dia.

    Porém seu sono tranquilo foi interrompido algumas horas depois assim que o dia amanheceu, quando sentiu um golpe no maxilar, não sabendo ser um chute, e então uma mecha da franja ser puxada para frente de forma violenta. Acordando em sobressalto com aquilo, praguejou uma série de palavrões e piscou algumas vezes, dando de cara com os olhos escuros da criança o fitando em um pânico silencioso. Ele estava preso todo torto aos braços de um Nero que dormia como pedra como de costume, olhou para o ariano e em seguida para o taurino, antes de repetir a ação, respirar fundo e começar chorar alto e se debater, golpeando o líder da tribo numa tentativa de se soltar. Respirando pesado e buscando um pouco de paciência no fundo da alma, o guerreiro loiro se sentou e golpeou o taurino na cintura com força para ele acordar, assim podendo tirar o pequeno de cima de seu corpo e pegá-lo no colo, ignorando os socos e chutes. Ele gritava palavras repetidas, mas não conhecendo o idioma, Heike ignorava.

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    Re: [#02] Turno livre - Tribo de Nero

    Mensagem por taurusnero em Dom Fev 15, 2015 11:09 pm

    Nero não havia sentido nada. Não havia percebido a criança acordar, não havia notado os golpes que recebia e nem a movimentação ao seu lado. Estava tão cansado, que somente se dera ao trabalho de mexer qualquer parte do corpo ao sentir uma dor bastante forte na cintura, arrancando um grunhido baixo de si. Por fim, só se dera ao trabalho de realmente acordar quando notara palavras nada educadas invadirem seus ouvidos em um tom que não conhecia, mas que poderia facilmente julgar relativamente novo. Perguntou-se de quem poderia ser aquela voz, e precisou cavar muito na memória para enfim decifrar o que estava acontecendo naquele instante - algo que poderia ter descoberto ao apenas abrir os olhos, mas fora impedido pelo excesso de preguiça.

    Em silêncio, e de forma bem preguiçosa, deixou o corpo se erguer até poder ficar sentado sobre a maciez da cama, seus olhos se abrindo de forma lenta, antes que buscasse a criança barulhenta com o olhar desfocado - o que apenas piorava sua expressão não muito amigável. Talvez fosse a expressão assassina involuntária, ou todo seu tamanho, ou, até, o fato de estar com o corpo marcado com a tatuagem que indicava sua liderança, mas bastara apenas encarar a face pequena para que o silêncio voltasse ao quarto por alguns momentos.

    Momentos poucos, já que o menino voltara a emitir sons diversos e começara a chorar e se debater nos braços de Heike. Parecia querer fugir, ainda que usasse de palavras bastante ameaçadoras contra os dois guerreiros. Com um suspiro pesado, o taurino esticou um dos braços em um pedido mudo de silêncio ao menino, antes que levasse a mão livre aos fios bagunçados dos próprios cabelos para que pudesse empurrar a franja longa para trás. E fora em completo silêncio que encarara o mais novo, deixando evidente a diferença que possuía, tentando mostrar que o entendia. Eles eram diferentes, compartilhavam um carma semelhante, e Nero jamais iria machucá-lo. Fora por isso que um sorriso pequeno nasceu nos lábios do taurino, pouco antes que se pronunciasse de forma baixa:

    "Calma, pequeno. Não vamos te machucar."
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    Re: [#02] Turno livre - Tribo de Nero

    Mensagem por Heike_Walker em Seg Fev 16, 2015 9:45 pm

    Quando o imbecil finalmente resolveu levantar, o menino no colo de Heike parou com o berreiro e o fitou de um jeito surpreso, ameaçado e mesmo assustado. Não demorou muito para que voltasse a chorar e se debater, gritando sem parar e arrancando um suspiro chateado do ariano. Isso era uma irritação muito grande para quem tinha uma paciência tão pequena. Porém, Nero o acalmou no mesmo instante com um gesto simples e poucas palavras, o que foi uma surpresa e alívio para o loiro mais velho.

    Talvez o o problema fosse justamente a comunicação ali. Não falava sua língua e não poderia entender o que se passava, então o taurino seria de grande ajuda. Observando o pequeno rosto moreno nos braços alternar as expressões entre surpresa e um adorável bico emburrado em seguida, o ariano relaxou e deslizou a mão entre os fios amarelados e irregulares da criança num carinho breve. - Ficou com medo desse bundão, é? - Questionou ao pequeno mesmo sabendo que ele não entenderia, então olhou para o companheiro com admiração, permitindo-se sorrir de canto. - Já que aparentemente você leva jeito com crianças, diz pra continuar quieto que vou limpar ele e passar o remédio. Acho que já vai amanhecer, não quero ficar enrolando pra ir até sua irmã. - Pediu, se espreguiçando demoradamente.
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    Re: [#02] Turno livre - Tribo de Nero

    Mensagem por taurusnero em Ter Fev 17, 2015 9:26 pm

    Ser chamado de bundão não era algo que agradava Nero ao extremo, porém a visão de Heike acariciando a criança e o jeito com que ele o tratava, faziam o moreno apenas sorrir levemente, ignorando qualquer ofensa - o que já estava acostumado a fazer, considerando a natureza do outro e o relacionamento de ambos -, e simplesmente reagindo aos dizeres alheios da forma que o ariano desejava. Pedira em poucas palavras para que a criança se mantivesse calma, avisou-lhe que tinham apenas a intenção de curar-lhe as feridas e que precisava da colaboração dele se quisesse se sentir melhor. E, após suas palavras, não fora surpreendente ver o menino deixar o corpo o mais rígido e quieto possível, provavelmente cansado demais de sentir a dor de todos aqueles ferimentos em seu corpo pequenino. Piscou, permitindo-se mostrar uma expressão entristecida, em um cansaço silencioso pela tradição local e a forma como tratam o que é diferente. Tão ignorantes... E monstruosos por agirem daquela maneira com uma criança pequena.

    Mais triste era saber que estava envolvido naquilo tudo. Não podia fugir de suas origens.

    Em um gesto silencioso, o taurino ergueu o corpo e se aproximou dos dois mais novos, sua mão pousando sobre o ombro de Heike, para que logo seguisse até uma parte mais afastada, recolhendo alguns mantimentos que pudessem consumir durante a viagem até a casa de sua irmã. Não deveriam se atrasar, aquilo era verdade, mas também queria tirar os dois do ambiente em que estavam o mais rápido possível. Principalmente o pequeno, que deveria ter sido arrastado de volta contra sua vontade, e, provavelmente, seguia com um medo absurdo desde que pisara na parte central da tribo. Vamos comer durante o caminho hoje. E iremos conversar enquanto caminhamos, Heike. Irei te explicar tudo que não sabe sobre essa tribo. Falou sem sequer desviar o olhar do que fazia, uma bolsa de couro logo ganhando espaço sobre seu ombro, antes que sentasse para esperar o ariano terminar de cuidar do garotinho.

    Fora só então que guiara o olhar novamente aos dois, a expressão natural se suavizando um pouco. Órion vai ficar feliz em receber visitas.
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    Re: [#02] Turno livre - Tribo de Nero

    Mensagem por Heike_Walker em Qua Fev 18, 2015 3:58 pm

    Aquela língua soava tão exótica aos ouvidos do ariano que não podia conter o sorriso ao ver o outro sussurra-la ao garoto. Talvez fosse apenas a voz de Nero, mas gostava de ouvir ele falando desse jeito.

    Agradeceu mentalmente ao ver o jovem ceder, parecendo tão indefeso que dava pena. E Nero, acompanhando o olhar, se mostrava abatido, preocupado e talvez triste. Mesmo depois de tantos meses juntos ainda era um pouco difícil para Heike entender completamente suas expressões em certos momentos, mas o conhecia bem o suficiente para saber que era extremamente difícil o taurino se deixar abalar com o que fosse. Sentia que conhecia um pouco mais de Nero a cada dia que passavam ali e mesmo assim tudo era uma incógnita tão grande. Desviando o olhar para o chão suspirou irritado e um pouco confuso até, quando o outro lhe apertou o ombro e se afastou. Levantando-se também, olhou para a criança e logo começou a limpar seu corpo para passar o remédio enquanto Nero se aprontava também. Com o mais novo quieto fora extremamente rápido cuidar dele, então ao terminar de passar o medicamento em seu pequeno corpo o fitou com severidade e apontou para a cama numa ordem muda para que ele não saísse dali, sendo encarado em desafio como resposta ao que ele já aparentava se sentir um pouco melhor. Assim, afastou-se até Nero e o puxou pelo braço até a parte de trás do que parecia ser um biombo.

    Com a expressão fechada levou as mãos até o cabelo do taurino e o agarrou com força, puxando-o para mais perto de um modo bruto. Por um momento, não fez nada mais do encarar ele de perto em silêncio, observando com atenção o seu rosto, seus olhos, seus traços. Sentia falta dele, mesmo vendo-o todo dia.

    Rosnando baixo, estalou os lábios com raiva e o puxou para um beijo leve, roçando as bocas. - Idiota. - Resmungou num sussurro, se afastando um pouco e dando um tapa sem força em sua bochecha. - Vamos logo então.
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    Re: [#02] Turno livre - Tribo de Nero

    Mensagem por taurusnero em Sex Mar 06, 2015 8:35 am

    Estava apenas esperando Heike terminar o que fazia para arrastar os dois para fora o mais rápido possível. Queria aproveitar o horário para que pudessem sair sem serem percebidos, queria que o mínimo possível de pessoas notasse a presença da criança que o ariano havia começado a cuidar, afinal, sabia bem o que poderia acontecer ao pequeno se estivesse naquele ambiente. No entanto, antes que pudesse fazer qualquer coisa, Nero fora arrastado para trás do biombo que havia no quarto, e para que fosse recepcionado pelos "carinhos" naturais do mais novo. O toque firme em seus cabelos não era nada de novo, o jeito agressivo de ser fitado também não, e talvez fosse por isso que simplesmente encarasse o antigo líder de volta, o olhar tão fixo quanto o alheio, em busca de compreender os motivos do menor em carregar uma expressão tão fechada - apesar de saber bem que provavelmente merecia ser encarado de tão forma, já que estava deixando o outro na mão com frequência.

    Em silêncio, e antes de receber o toque suave dos lábios alheios contra os seus, o taurino não resistiu a abrir um pequeno sorriso. Estava com saudades de ficar tão próximo do outro, e talvez fosse aquele o motivo do súbito aperto que dera no corpo alheio, abraçando-o com um pouco mais de força que o natural, antes de voltar a trocar um selar suave. Precisavam ir, e somente aquilo o impedia de ficar mais um pouco ali com o outro. Aquilo e a criança que esperava ambos do lado de fora, e que provavelmente não entendia porque eles haviam se escondido. Levou a destra pesada aos cabelos loiros do amado, antes de imitar-lhe os movimentos, mas para puxá-lo para fora do esconderijo; pequenos tapas nas costas alheias indicando que ele deveria rumar para a saída. Nero cuidaria da criança, e não demorara mais que um momento para ter o garotinho sobre seus ombros. Vamos, antes que amanheça de vez. Órion não gosta de atrasos.

    -

    O caminho era longo o suficiente para que o garotinho pudesse fazer sua refeição e ainda tivesse tempo para dormir abraçado à cabeça de Nero. Era tempo o suficiente, também, para que pudesse começar a contar algumas coisas para Heike, ainda que estivesse enrolando por um bom tempo. Heike... Sobre esse garoto... Hm... O taurino não sabia exatamente por onde começar, por isso acabou gastando um tempo em silêncio após os dizeres que lançara sem pensar, tentando arranjar uma linha que servisse como ponto inicial da conversa. Ele não está sendo ignorado pelo motivo que pensou. Você já reparou como são as pessoas daqui? A aparência?
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    Re: [#02] Turno livre - Tribo de Nero

    Mensagem por Heike_Walker em Seg Maio 09, 2016 9:55 pm

    Ao ser envolvido daquela forma pelo moreno, o primeiro impulso do ariano foi empurrá-lo, porém diante do aperto de ferro a que era acometido acabou suspirando e relaxando involuntariamente, torcendo os lábios para aquele selar carinhoso mesmo que no fundo quisesse quase desesperadamente continuar ali em seus braços o resto do dia. Mas entendia que não era uma realidade que poderia esperar acontecer, então permaneceu em silêncio ao que em seguida era guiado para fora dali.

    -

    Não iria mentir dizendo que não estava curioso para saber o que o líder tinha para lhe contar, mas durante o caminho deu o espaço que ele precisava organizar os pensamentos, já que claramente parecia ser um assunto delicado. Assim focou em se concentrar por hora na trilha que seguiam ou então na criança que se encontrava nos ombros de Nero parecendo consideravelmente mais relaxado. Se era por ter os machucados já cicatrizando pelos remédios avançados ou se por estar sendo, pasmem, carregado pelo novo líder, Heike não sabia, mas era reconfortante ver aquele pequeno rosto tranquilo ao dormir mesmo na posição em que estava.

    Por fim o moreno finalmente se pronunciou parecendo hesitante. Com a pergunta, o ariano se permitiu refletir inicialmente sobre o que aquilo tinha com o garoto.

    A aparência? Claro, não era difícil, até porque o próprio regente havia reparado na aparência de todos assim que chegaram. Apesar de cada um ter suas feições diferentes com características próprias, todos eram muito parecidos. Cor, estatura, detalhes... A genética de todos ali era definitivamente forte e dominante. Mas.. Qual era o problema? Entre confusão e curiosidade, observou a criança e em seguida o guerreiro de um jeito pensativo, franzindo o cenho. Sim...?
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    Re: [#02] Turno livre - Tribo de Nero

    Mensagem por taurusnero em Ter Maio 10, 2016 9:56 pm

    Podia notar claramente a confusão de Heike, provavelmente perdido em suas tentativas de compreender o que queria dizer com aquilo, mas Nero apenas meneou a cabeça em um gesto de satisfação pelo outro ter indicado entender o que queria dizer. - Na tribo, somos altos, temos uma estrutura mais forte, pele escura, assim como os cabelos e os olhos. Eu não tenho os dois olhos escuros, no entanto... - O moreno sorriu de um jeito suave, quase esquecendo a existência do pequeno sobre os ombros, já que planejava movê-los de forma descontraída. - E o garoto aqui não tem os cabelos escuros. Você sabe… - Mais uma vez o guerreiro mais alto parou o que tinha para dizer para formular melhor como se expressar, como se fazer entendido adequadamente por sua companhia. - Quando se tem um padrão, um normal, algo que destoa disso é considerado diferente. E o que é diferente, é estranho.

    Um suspiro pesado, e o olhar de tons distintos pousou no ex-líder, focando-o de forma tranquila enquanto permitia-se seguir o caminho para o lar de Órion quase automaticamente, já acostumado com o relevo e as pequenas distrações do caminho. - E o estranho, dependendo de onde se esteja, do que se crê nesse local, torna-se motivo para violência, Heike. E foi isso que aconteceu com esse pequeno. Ele não foi agredido por causa de nossa cultura de treinar guerreiros acima de qualquer coisa. Ele foi agredido porque ele não se encaixa no padrão, porque ele é estranho, é errado, e deve ser fruto de algum mal. Pessoas como ele não podem viver aqui ou catástrofes podem acontecer… Acho que é algo do tipo que pensam por aqui.

    - Eu também passei por isso… - Nero continuou, tentando ao máximo não recordar todas as coisas pelas quais passara, todos os anos em que gastara escondendo quem era, e o medo que foi cultivado pelas palavras cruéis de seu pai. Carregara aquilo por tanto tempo, e tão profundamente, que surtara de uma maneira extremamente constrangedora quando Rin cortara seu cabelo pela primeira vez. Aprendera a lidar com aquilo, principalmente após notar como ninguém se importava com sua aparência. E como poderiam? Todos eram tão diferentes, e ele apenas era mais uma pessoa diferente. - Eu me sentia um monstro, e por isso eu me escondia. Você lembra de quando tive o cabelo cortado? A reação? Eu me senti acuado, tirado de uma proteção, e até hoje sinto incômodo às vezes, como se estivesse errado do jeito que estou. Me fizeram ter todo esse medo. E esse pequeno… Ele nem tem como esconder sua diferença.

    Então, virando a última curva antes de chegar à casa de sua irmã, Nero mastigou levemente o lábio inferior, sentindo a mulher se aproximar antes mesmo de conseguir enxergá-la. - Eu tive sorte, sabe? Mas tiveram pessoas que não. E você vai entender isso em breve.
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    Re: [#02] Turno livre - Tribo de Nero

    Mensagem por Heike_Walker em Sab Maio 14, 2016 1:32 pm

    Felizmente Nero não demorou de começar a explicar o que queria dizer com tudo aquilo, e inicialmente não falou nada além do óbvio para dar uma luz as dúvidas que havia gerado. Apesar disso não tardou se fazer entender sobre a questão principal, que apesar de fazer o menor lhe lançar um olhar surpreso, na verdade não era nada de outro mundo.

    Violência e preconceito não eram conceitos que o loiro desconhecia. Na verdade, o ariano também sofrera pelo mesmo motivo desde que se entendia por gente, por conta dos próprios olhos e dos chifres, então entendia o que ele estava lhe dizendo. Quer dizer, entendia em partes. Heike sim era estranho, um monstro que não se encaixava na sociedade, que realmente era fruto de um mal. Discriminar por causa de cor de cabelo? Dos olhos? Isso era tão ignorante que lhe embrulhava o estômago ao pensar no estado em que o pequeno garoto se encontrava no dia anterior por um motivo tão idiota. Ao pensar em um Nero tão pequeno quanto o loiro em seus ombros sofrendo da mesma forma. Era por isso que ele tinha saído dali?

    Fitando o caminho irregular que andavam, trincou os dentes e prendeu a respiração num misto de raiva e vergonha. Se lembrava de chegar a sentar no chão de tanto rir quando Rin cortara o cabelo dele, e agora se sentia mal por tal coisa. Era importante para Nero, mas ninguém respeitou o que aquilo significava para ele. Por um lado foi bom para ele superar tal coisa, mas não deixava de ser péssimo o que fizeram. Abriu os lábios para falar que ele não era errado de forma alguma, mas acabou fechando novamente logo em seguida. O outro provavelmente já sabia disso. Dizer agora não faria diferença alguma.

    Isso é muito estúpido. Disse num murmúrio ainda sem olhar para ele, respirando pesadamente. Queria contar as próprias experiências para ele, mas antes que pudesse voltar a falar sentiu uma outra presença se aproximar, vendo a silhueta de uma pessoa mais a frente. Se encontrava alerta, mas Nero não parecia alarmado, então só restava a curiosidade ao loiro a medida que se aproximavam.

    Quando finalmente pudera ver com clareza, se deparou com uma mulher que não precisou nem olhar duas vezes para notar que era muito parecida com Nero.  Bem mais alta e encorpada que Heike, ela parou a frente dos três com uma postura altiva e orgulhosa, exalando força e poder. Não precisou olhar duas vezes também para perceber que ela era cega, não pela cicatriz enorme que tinha em seu rosto, mas pelo modo como seu olhar parecia vago e fixo em nada em particular, mesmo que na direção de ambos. Naquele instante se perguntou se era isso o que Nero quis dizer em sua última frase.

    Ela era maravilhosa. Não apenas na questão de aparência, que era exótica e chamativa mesmo se comparada as outras mulheres da tribo, mas pela força que aparentava ter. Essa é a Órion? Soltou antes que conseguisse se segurar, olhando para o taurino de um jeito quase embasbacado e já esquecendo a tensão do assunto anterior. Não fazia diferença afinal falar o que pensava, assumindo que ela não conhecia sua língua como o restante da tribo, era um hábito para o ariano falar o que bem entendia na frente dos outros desde sempre, mas principalmente ali que ninguém podia lhe entender. Olha o tamanho desses braços, Nero, se eu soubesse tinha vindo conhecer ela bem antes. Mais forte que você e gostosa desse jeito... Acho que vou te trocar. Provocou o maior, desrespeitoso como sempre, rindo ladino e cutucando a cintura dele com o cotovelo animadamente.
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    Re: [#02] Turno livre - Tribo de Nero

    Mensagem por taurusnero em Dom Maio 15, 2016 3:55 pm

    Por todos os momentos em que o outro se mantivera em silêncio, expressando-se por reações mínimas que o moreno apenas conseguia captar graças à sua grande sensibilidade, Nero seguira também com os lábios cerrados e o olhar distante, focado na direção pela qual sua irmã se aproximava. Não havia mais o que pudesse fazer, a não ser esperar que o regente absorvesse o que lhe foi dito e transformasse aquilo em algum tipo de conjunto de palavras que expressasse seus sentimentos perante os absurdos que os conterrâneos do taurino chamavam de costume. Não demorou para escutar a voz do menor, assim como esperava, e em uma frase que resumia muito bem o que agora sentia sobre tal cultura. Sim, era estúpido, e queria muito mudar aquela estupidez, mesmo que ainda não soubesse como.

    No entanto, pensar sobre o assunto era algo que teria que esperar, já que logo sua irmã apareceu, interrompendo o clima tenso anterior para criar um novo, onde a simples presença dela transformava os arredores de uma maneira que não sabia explicar com exatidão. Órion tinha uma aura incrível, que, na primeira vez que sentira, conseguira deixar o guerreiro da constelação de touro assustado o suficiente para sequer conseguir reagir adequadamente aos ataques repentinos lançados contra si. Agora, porém, já havia se acostumado àquilo, e chegara ao ponto de costume em que conseguia torcer a face e se preparar para comentar algo desgostoso, certo de que tinha o direito de agir daquela maneira quando a mais velha se mostrara tão... Irmã mais velha insuportável, durante os dias que vinham convivendo juntos.

    - Essa é a Órion. - o moreno começou, debatendo mentalmente se deveria continuar com dizeres aleatórios que indicavam o quão insuportável era a outra ou se continuava a explicar o que vinha dizendo até então, mas tudo que conseguira fora deixar os lábios penderem entreabertos, enquanto escutava a voz de Heike novamente, e em uma frase que o fez gastar segundos em silêncio antes de grunhir e enfiar a mão no próprio rosto. O que deveria fazer com aquela criatura que tinha de companheiro? Sorte a dele que Órion não podia entender os disparates lançados pela língua solta do mais novo e...

    - Desculpe, mas pigmeus não fazem o meu tipo... Nero, quem é esse anão?

    Ou ao menos acreditava que ela não entenderia. Grunhindo ainda mais ao descobrir que sua irmã era capaz de falar a língua da nave mãe, Nero jogou a outra mão sobre o rosto, a voz escapando baixa e abafada graça às palmas que lhe cobriam os lábios. - Por que não me disse que sabia falar outras línguas? - E o moreno sabia muito bem que "você nunca perguntou" seria a resposta, quando ouviu o som debochado que escapou dos lábios da mulher.

    - Você nunca perguntou. - Sabia, o moreno sabia, e não resistiu a emitir mais um grunhido antes de enfim tirar as palmas do rosto, fitando a sua irmã, que tinha os braços cruzados diante dos seios. Ela riu então, em um tom alto e debochado, provavelmente se divertindo com o que podia sentir do desgosto de Nero. -Olá, estranho. Você é o que do meu irmão? - Ela se aproximou, fungando o ar e fazendo o maior presente desviar o olhar, sentindo-se constrangido repentinamente. - Aliás, não precisa dizer, do jeito que você cheira, não é muito difícil deduzir. Agora, se você quer trocar Nero pelos meus braços, adoraria apresentá-los a você. - E agora era o sorriso feral... Deuses, nunca chegariam ao ponto daquele jeito.
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    Re: [#02] Turno livre - Tribo de Nero

    Mensagem por Heike_Walker em Dom Maio 15, 2016 8:33 pm

    Pigmeu?! Questionou num tom rosnado mais alto que o necessário antes mesmo de se dar conta de que ela tinha entendido o que havia falado, ignorando completamente a reação hilária de Nero metendo a mão na própria cara e o fato de que provavelmente tinha acordado o pequeno garoto nos ombros dele. Respirando fundo, inflou o peito e formou uma careta emburrada por ter justo seu calo, depois que chegou na tribo, pisado em menos de dois segundos.

    Porém, encarou a interação dos dois com os olhos estreitos e em silêncio, ainda um pouco embasbacado com a situação, principalmente depois da risada alta dela que ecoou pela floresta pelo desgosto do taurino. Ao ser praticamente farejado em seguida, não conseguiu continuar emburrado e foi a própria vez de deixar uma risada abrupta ecoar no ambiente selvagem, surpreso com tudo aquilo. Do jeito que eu cheiro? Cara isso fica melhor a cada segundo. Resmungou olhando para o líder ao lado com o sorriso entre deboche e malícia, sem se deixar abater pela personalidade expansiva e pela invasão de privacidade por parte dela. Aliás! Caralho, finalmente alguém que fala minha língua! Já tava achando que ia ficar louco no meio daquele povo da tribo. Nero também, é outro que não da pra conversar simplesmente por ser tão inútil quanto uma porta. Então eu sou todo seu irmãzona. Brincou, retribuindo o sorriso feral mesmo que ela não pudesse ver. Já tinha gostado dela instantaneamente, e isso era tão, tão raro que não podia fazer nada além de se excitar de animação, ansioso para ver a mulher lutando ou para ver Nero sendo humilhado por ela da forma que fosse. E eu adoraria ver do que eles são capazes. Praticamente ronronou, quase fervilhando no lugar.

    Ela não parecia em nada a ogra que o moreno tinha lhe falado, e que invariavelmente tinha imaginado na cabeça. Ela parecia poderosa em todos os sentidos e o regente não podia fazer nada além de admirá-la. Era engraçado tal coisa visto que tinha acabado de conhecê-la, mas Heike não achava que mudaria de opinião nem se ela lhe usasse como arma humana para bater no taurino. Nero que devia estar sendo apenas um preguiçoso como sempre. Não sabia o que viria agora, o que iriam fazer, mas não se lembrava de ter ficado animado de tal forma em nenhum dia desde que chegara ali.
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    Re: [#02] Turno livre - Tribo de Nero

    Mensagem por taurusnero em Dom Jun 05, 2016 3:10 am

    Nero não estava impressionado. Realmente, sinceramente, o taurino não conseguia se sentir impressionado com o que via. Cansado por antecipação? Sim. Ciente de que aquilo sobraria para si? Com certeza. Mas não estava surpreso, nem impressionado, e, muito menos, motivado a continuar naquele ambiente quando Heike e Órion mostraram possuir uma química boa demais para sua paz de espírito. Se ficasse em silêncio por mais algum tempo, tinha certeza absoluta que sua irmã iria começar a lutar com o ariano, e ele iria se animar o suficiente para aquilo tomar proporções catastróficas. A mulher ainda precisava se manter em sigilo, será que ela havia esquecido aquilo?

    Tinha outro problema também, e somente o percebeu quando sentiu mãozinhas lhe puxarem os fios de cabelo. Ótimo, tinha esquecido que o garotinho estava em seus ombros - que culpa tinha se ele era tão leve? -, e, agora, estava provavelmente assustado porque tinha mais um monstro gigante próximo a si, prestes a brigar com a pessoa que tinha o amedrontado primeiro e, bem, catástrofe... Ou talvez não, já que, ao tentar ter um vislumbre da cara do pequenino, jurou ver olhos brilhando para a cena que se desenrolava diante de ambos. Certo, aquela seria mais uma adição para o time da agressão desnecessária? Porque Nero não sabia se estava preparado para aquilo.

    Com um suspiro tão pesado que parecia estar carregando o mundo nas costas, o taurino tirou a criança de seus ombros e se sentou no chão com ela em seu colo. Sua expressão era de um cansaço profundo, mas ainda assim ergueu uma das mãos e se pronunciou após um breve limpar da garganta. - Ei, desculpem interromper a diversão de vocês, mas, Órion, eu estava contando para Heike sobre a tribo e a história de nós dois. - Aquilo pareceu ter sido o suficiente para que a mulher parasse sua quase investida e voltasse a face para o local onde o moreno estava, o sorriso morto tirando a iluminação selvagem do rosto da mesma. - Pensei que seria mais interessante se você contasse o que aconteceu contigo pessoalmente.

    Aquilo fez o trabalho de acabar de vez com a animação do ambiente, e o rapaz se sentiu um tanto culpado por isso, porém queria que Heike ouvisse tudo que podia sobre sua tribo, sobre o quão absurdos eram os costumes do local e o quão violentos podiam se tornar diante da ameaça do desconhecido. Em silêncio, observou Órion se aproximar e se sentar em seu lado, a mão pesada logo parando sobre os cabelos da criança, e a mulher nunca falhava em impressionar com sua precisão e seu conhecimento sobre tudo que existia ao seu redor. Ela provavelmente já havia deduzido o porquê do menino estar na mão de dois guerreiros, e tão longe do lugar onde deveria realmente estar. - Qual é o motivo dele? - O tom dela era baixo, e o taurino se sentiu impelido a responder na mesma altura. - Ele tem os cabelos claros.

    Dessa vez, fora a mais velha que deixou o ar escapar dos pulmões de forma ruidosa, antes de cruzar os braços diante do corpo e se pronunciar de forma irritadiça. - Bom, a história é longa, então é melhor mesmo todos estarmos sentados.

    - Quando eu nasci, meus dois olhos eram verdes. Se Nero te contou a história dele, você sabe que ele foi forçado a esconder para poder viver com um mínimo de decência na tribo. Eu também precisei, e, por muitos anos, vivi com os cabelos cobrindo meus olhos, fingindo que era um menino, já que as mulheres não costumam deixar o cabelo cobrindo o rosto lá. Hm… Bem, eu nunca fui uma pessoa que se sentia satisfeita em aceitar calada o que me mandavam fazer, então esconder os olhos e ignorar minha vontade de ser quem sou só durou até eu ter 15 anos. Me revoltei, arrumei os cabelos em casa, me despi das ataduras que escondiam meus seios, e saí contente pela primeira vez na vida… Muitas pessoas se afastaram de mim, outras me olharam com medo… Fui puxada de volta para casa por meu pai. Nós brigamos. Eu era forte, claro, fui treinada da mesma forma que qualquer outro da tribo, e um tanto mais, já que era um “menino filho do futuro líder”. Só que ainda era uma criança. Foi por isso que no auge da minha fúria eu não percebi o golpe se aproximar. - A mulher parou de falar para escorregar o indicador pela cicatriz que tinha sobre o olho que vivia fechado. - Meu próprio pai me arrancou um dos olhos. Foi meio assustador de uma forma estranha. Sempre fui tratada mal, sempre fui considerada escória mesmo tendo feito nome como um guerreiro promissor. Sempre me disseram que eu era uma maldição e que seria jogada fora na primeira oportunidade. Mas não imaginei que era realmente tão odiada, não imaginei que iriam mesmo cumprir com o que diziam… Bem... - Uma risada escapou dos lábios cheios, antes de Órion coçar a cabeça, a expressão se torcendo em uma contemplativa. - Se bem que não lembro se realmente fui jogada para fora, ou se fugi no desespero. Acho que a segunda opção, já que lembro do meu pai prestes a enfiar a lança em meu peito e várias outras mãos tentando me segurar.

    Um dar de ombros, e a mais velha agora tinha um sorriso pequeno estampado nos lábios. Nero realmente não conseguia entender como ela conseguia ser tão descontraída. Ela estava irritada, era óbvio que estaria, mas ela passou por tanto, que ainda lhe impressionava como ela conseguia falar aquilo tudo de uma maneira tão clara. E, agora, mesmo em uma língua que não lhe era a de nascença. O taurino encarou o chão, sentindo pelo que fizeram a ela uma raiva imensurável, o corpo tensionando de forma desconfortável o suficiente para fazer o garoto em seu colo se voltar para ele com olhos curiosos. No entanto, sentiu-se impelido a relaxar ao que teve um tapa leve contra seu ombro, um toque de conforto de Órion, da própria pessoa que deveria precisar daqueles cuidados...

    - Agora, se quiser saber como perdi a visão do outro olho… Derrube meu irmãozinho em batalha e eu te digo! Mas ele não pode conseguir levantar, combinado?

    Aliás, ela não precisava de cuidado algum.
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    Re: [#02] Turno livre - Tribo de Nero

    Mensagem por Heike_Walker em Dom Jun 05, 2016 6:00 pm

    Órion pareceu satisfeita o bastante com sua resposta por um momento, mas antes que ela pudesse de fato responder qualquer coisa Nero os interrompeu com um suspiro alto antes de tirar o garotinho dos ombros e se sentar no chão, para então limpar a garganta alto o suficiente e se pronunciar. Certo, por mais que o jovem ariano estivesse animado demais com a mais velha, realmente estavam ali para fazer outras coisas e não para pularem um no pescoço do outro logo que se conheceram. Mesmo que parecesse tentador demais deixar tudo de lado e testar a força da morena.  Assim, sem protestar deixou a energia que já estava acumulando se dissipar para que se sentasse no chão perto do moreno junto com a irmã dele, permanecendo em silêncio ao que via ambos interagirem com o pequeno, que por sua vez parecia admirado demais com Órion para fazer qualquer coisa além de fitá-la com os olhos arregalados. Heike podia entender isso.

    Quando a mulher começou a contar sua história, porém, o regente passou a prestar a atenção em suas palavras, cruzando os braços na frente do corpo também. Nero não tinha tido muito tempo no caminho para lhe contar sua história, mas o pouco que foi dito já era o suficiente para deduzir várias coisas. A história de Órion não parecia muito diferente, baseada em características físicas e violência sem sentido, e isso era o suficiente para que o loiro desviasse o olhar para as folhas secas no chão com a expressão dura, a boca firme numa linha fina ao que tentava digerir tudo aquilo. Chegava a ser engraçado que mesmo em ambientes tão diferentes, com culturas tão diferentes, as pessoas continuassem ignorantes e irracionais do mesmo modo. O próprio pai ter lhe ferido daquele jeito não era surpresa, mas não conseguia empurrar para longe aquele sentimento pesado que se instalara no peito.

    Mesmo com tudo que era dito a irmã do líder parecia descontraída ao dar de ombros depois de explicar o que queria e abrir um sorriso, ainda que pequeno. Como ela conseguia passar por tantas injustiças e dores e permanecer tão tranquila? Heike não conseguia entender, mesmo com tantas meditações e depois de ter se encontrado com o espírito da constelação de áries... O jovem ainda não se via conseguindo agir com tanta naturalidade com algo tão pesado quanto aquilo. E pelo visto nem mesmo Nero conseguia, pelo modo como parecia tenso e borbulhando de raiva.

    Apesar disso a própria mulher quebrou o clima pesado que se instalara entre os quatro ao fazer aquela proposta para o loiro mais velho, que a fitou com certa surpresa e então deixou uma risada gostosa escapar. Esse daí? Do jeito que é lerdo não vai ser problema nenhum. Provocou divertido, apesar de seu olhar direcionar para o taurino com uma afeição e carinho raros de se demonstrar.

    A partir disso o loiro se viu entrando numa rotina parecida com a que Nero vinha seguindo nas ultimas semanas.

    Com o pequeno, que decidira chamar de Himawari por lhe lembrar um girassol pelos cabelos dourados, permanecendo com a irmã de Nero para não sofrer mais nenhum abuso e se recuperar até decidirem o que iria ser feito, ambos os guerreiros tinham mais liberdade para ir e vir, então logo que o dia amanhecia iam se encontrar com Órion ali em sua morada no meio da floresta para treinarem até não restar mais forças e assim que a noite começava a chegar os dois voltavam para a tribo. Alguns dias Nero precisava ficar na tribo para resolver algumas coisas, em outros o próprio Heike permanecia com as mulheres para despistar, afinal não queriam ninguém seguindo-os mata adentro. Mas fora isso ambos estavam seguindo um programa de treinos árduo e fatigante, lutando um contra o outro ou as vezes os três ao mesmo tempo, o que eram os favoritos de Heike em disparada. A mais velha as vezes mandava Nero sozinho em algumas tarefas dele, e com isso o ariano passava as tarde treinando com ela os costumes da tribo e a língua deles para poder se comunicar com Hima, treinavam também focando tanto na força física, quanto na espiritual que ainda carecia muito de evolução.

    A mulher, apesar de em nada estar relacionada com a constelação de áries, era uma pessoa quase iluminada que tinha muito a ensinar ao jovem sobre os próprios limites, sobre as energias que existiam no próprio corpo: tanto a de áries quanto a que herdada de Kain. Ela vinha lhe ajudando a se conhecer e a se entender, a ver até onde conseguia ir sem fraquejar e a ultrapassar isso. Heike estava começando a conseguir controlar ambas as energias em sincronia mesmo durante as batalhas, mesmo quando sentia raiva ou ódio, ou quando estava prestes a se descontrolar emocionalmente. O processo era terrivelmente lento e muitas vezes frustrado, mas Órion tinha algo em si que só estimulava o jovem a tentar cada vez mais, mesmo quando achava que não iria mais conseguir. A morena além de estar sendo fundamental nesse quesito, também lhe ensinava a ter um maior controle de seus sentidos e do que ocorria ao seu redor apenas sentindo, o que para alguém impaciente e inquieto como Heike também se mostrava um sacrifício.

    Principalmente hoje, vários dias depois de ter conhecido a morena, que estava sozinho na floresta tentando meditar e se conectar com a natureza do modo que ela queria, que particularmente achava que nunca iria conseguir. Estava mais inquieto que o normal, não conseguia se concentrar pensando em Nero. Era um dia importante para o taurino e Heike não sabia dos detalhes. Tinha chegado ali horas depois dele e tudo o que soube de sua irmã era que ele estava numa situação delicada e que ela não sabia realmente quando e em que estado ele voltaria. Heike queria quebrar algo, queria se levantar, correr uma maratona, qualquer coisa além de ficar sentado ali tentando descobrir quantas formigas tinham no formigueiro mais a frente ou quantos pássaros viviam na árvore mais próxima a sua esquerda apenas através da energia que eles emanavam. Já tinha levado uma pedrada na cabeça pela mulher mais cedo, por ter queimado boa parte das pequenas plantas ao redor do próprio corpo sem nem perceber, e se continuasse naquele ritmo a mulher provavelmente iria aparecer ali e enfiar sua cara na terra. Estava.. Preocupado. Como se concentrar quando tinha o peito apertado num pressentimento tão ruim? Nero não tinha lhe falado nada.

    Bufando pesadamente, deixou o corpo tombar para trás e num baque surdo deitou no chão, virando o rosto para o lado e se concentrando em esquentar uma pequena pedra em meio a grama apenas até ela ficar avermelhada, para depois tentar retirar todo o calor dela. Aquele já era um exercício fácil, mas estava entediado demais para qualquer outra coisa. Foi nesse momento que sentiu alguém se aproximar.
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    Re: [#02] Turno livre - Tribo de Nero

    Mensagem por taurusnero em Sab Jun 11, 2016 10:37 pm

    Apesar dos pequenos pesares que vieram do encontro de Heike com Órion - como a ausência constante de sua paz de espírito, já que os dois frequentemente resolviam gastar horas tirando com sua cara -, Nero estava realmente agradado com a presença do ariano em seus treinamentos.Tê-lo como parte fundamental para o seu desenvolvimento era revigorante, e sua presença era tão estimulante, que o homem mais velho chegava ao ponto de gastar vários momentos de descanso se questionando o porquê de não tê-lo levado à casa de sua irmã mais cedo. Era uma pergunta retórica, no entanto. Afinal, sabia bem que tivera medo de trazer qualquer prejuízo à mais velha, seja com alguma pessoa os seguindo por curiosidade, seja por ela simplesmente não se sentir confortável com o outro guerreiro por qualquer que fossem seus motivos. Ao menos, agora sabia que a última preocupação era desnecessária, já que ambos combinaram tão bem em vários aspectos, que chegava a ser cansativo vê-los juntos. Mas o taurino estava se acostumando aos poucos - não era como se tivesse outra opção.

    De qualquer maneira, seu agrado era algo que possuía motivos óbvios. Agora, treinando juntos, o moreno podia passar muito mais tempo com o ariano. Podiam conversar em momentos de descanso, ou até mesmo enquanto estavam cumprindo com as atividades propostas por Órion. Podiam comer juntos, podiam trocar toques - mesmo que violentos, a depender do momento -, mas, o mais importante, era a sensação confortável que vinha da presença alheia junto à sua. E o sentimento era algo que permanecia mesmo nos dias em que a rotina mudava e não podiam estar juntos. Treinar sozinho não parecia tão pesado quando tinha ciência de que Heike não estava mais apenas o esperando voltar. Agora o ariano tinha aulas com sua irmã também, e, quando não estava com ela, o loiro estava na tribo por ser necessário o sigilo quanto a existência da guerreira. Nero chegara a questioná-lo, preocupado, se ele se incomodava muito com aquilo, porém o loiro respondera que não, e não parecia estar mentindo.

    Uma pena, porém, que, por mais que os dias estivessem agradáveis, havia um destino inevitável diante do moreno. Nero precisava da pedra, precisava que ela estivesse fundida ao seu corpo, precisava da força que aquilo traria, e, para conseguir tudo que precisava, necessitava adentrar um buraco do inferno do qual muitas pessoas não conseguiram escapar. Só havia escutado sobre sua irmã como sobrevivente, e mesmo ela não escapara completamente ilesa. Aquilo era assustador. Aliás, era ainda mais assustador perceber-se espantado com a possibilidade de sofrer qualquer dano, ou de acabar sem conseguir retornar para o mundo exterior. Se ainda fosse o mesmo de antigamente, o moreno provavelmente já teria entrado no local, talvez logo no primeiro dia que soube onde encontrar a pedra. No entanto, após escutar a história de Órion, o taurino vinha adiando sua ida, enrolando o máximo que podia para aproveitar aquele dia-a-dia tranquilo, num ambiente confortável, com as pessoas que gostava… E as quais iria decepcionar se continuasse daquela maneira.

    Demoraram alguns dias para que o taurino, enfim, cumprisse seu destino. E, apesar de ter conseguido o que tanto desejava, ainda havia algo de muito errado para ser consertado.

    -

    Ter os sentidos infinitas vezes mais desenvolvidos que o normal certamente era uma bênção, porém uma que somente valia em determinadas ocasiões. Em outras, aquela capacidade podia facilmente ser um pesadelo, e Nero nunca pensara de tal forma até o momento presente. O taurino estivera em um ambiente completamente fechado, onde nada podia ser sentido e malmente podia ouvir os próprios pensamentos, para, do nada, acabar envolto em um mar de informações. Tudo era alto, tudo cheirava forte, a sensação sob seus pés parecia queimar, e seus olhos ardiam com a luz. Confuso, estava completamente perdido, com a cabeça explodindo de tal maneira, que qualquer enxaqueca parecia um suave incômodo perto daquela dor. A sensação, no entanto, não se mantinha apenas por aquele choque repentino. Nero estava com todo o corpo desregulado. Suas energias pareciam não se encaixar, e uma dor lancinante corria por cada parte de sua anatomia, parecendo repuxar seus músculos, esmigalhar seus ossos e apertar seu cérebro.

    Muitos sons de angústia escaparam seus lábios enquanto corria cegamente pela floresta. Galhos batiam contra si, intensificando a dor e ressoando de uma maneira que parecia aumentar a pressão constante em seu cérebro. Caminhava sobre brasa, incerto de para onde ia, sem saber sequer se realmente continuava a existir, ou se realmente estava se locomovendo. Porém, não arriscava abrir os olhos novamente para confirmar. Se o fizesse, ficaria cego, ficaria completamente cego, a luz queimaria seus orbes assim como o calor parecia derreter sua pele. A única coisa que a mente de Nero conseguia processar era a necessidade de encontrar um lugar para se esconder. E, sem que percebesse, seguira o cheiro daquele que considerava seu porto seguro.

    No entanto, em meio à sua bagunça mental, a sensação de alguém se movendo muito próximo a si o fez parar, seu corpo tremendo quase como se tivesse levado um choque, antes que suas pernas e braços assumissem as posições ofensivas às quais treinara exaustivamente por todo esse tempo. A cabeça de Nero não funcionava, porém todo o resto do taurino agira de maneira quase automática, seu peso sendo impulsionado para frente, ao mesmo que um urro escapava de seus lábios, soando tão dolorido quanto perdido, buscando o que assumira como inimigo sem pensar duas vezes.
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    Re: [#02] Turno livre - Tribo de Nero

    Mensagem por Heike_Walker em Dom Set 11, 2016 9:21 pm

    Por um breve momento Heike achou que se tratasse de alguma criatura, pela velocidade e descuido que se aproximava, dispersando pequenos animais e perturbando a vegetação local. Porém não demorou para que suas suspeitas se tornassem infundadas no momento que ouviu um som estranho, um lamento alto e agressivo, uma demonstração clara de dor e desespero. Nero? Esse som, era Nero?

    Levantando-se num pulo, não pensou duas vezes antes de disparar na direção em que tudo aquilo ocorria e acabou dando de cara com Nero no meio do caminho. Sua preocupação apenas aumentou quando colocou os olhos no maior, que apesar de aparentemente não ter nada de errado fisicamente, não parecia nada bem. - Nero! - Chamou o taurino gritando seu nome ao que avançava até ele, notando ele se mover atordoado de olhos fechados, como se estivesse desorientado e com dor. O que ocorreu, porém, deixou o loiro extremamente confuso ao que ele apenas lhe ignorou e se colocou em posição de ataque como se estivesse diante de algum inimigo. Hesitando onde estava, o loiro teve meio segundo para analisar a postura do guerreiro antes de ter que desviar bruscamente de um golpe repentino.

    Com o coração a mil e sem entender absolutamente nada, Heike pulou contra o tronco de uma árvore e pegou impulso para subir no galho grosso de outra, mas um vulto pulou na sua frente antes mesmo que pudesse concluir o pensamento, e foi apenas quando se viu voando para outra direção é que entendeu que fora Nero que se colocara em seu caminho e o atingira com um golpe forte no estômago.

    Atingindo uma árvore com força e caindo no chão, Heike tossiu e ofegou com dificuldade ao que tentava se levantar, já sentindo o moreno próximo. Esperando o momento exato, pulou contra o moreno e moveu o corpo contra o dele, derrubando-o no chão de forma rápida e bruta. Torcendo o braço dele pelas costas, usando o próprio peso para prendê-lo no chão ao que firmava o pé contra sua nuca pra imobilizá-lo mesmo que momentaneamente, o ariano respirou pesado e encarou o companheiro de cima enquanto tremia pela dor do golpe anterior e pela adrenalina. - Que MERDA É ESSA NERO? - Gritou, forçando o pé contra ele e estreitando o aperto em seus braços, respirando pesadamente. O taurino sequer reagiu a sua voz, como se não tivesse nem ouvido.

    Do pouco que podia ver de sua expressão pela lateral do rosto contra a pedra, o moreno parecia sentir uma dor profunda e emitia sons incoerentes. O que tinha acontecido? O que estava acontecendo? Precisava.. Precisava encontrar a Órion, ela certamente saberia o que tinha de errado com ele.
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    Re: [#02] Turno livre - Tribo de Nero

    Mensagem por taurusnero em Qua Nov 23, 2016 8:45 pm

    Nero não tinha noção alguma do que fazia. Todos os movimentos do taurino, sem exceção, haviam sido realizados de uma maneira automática, tão desligada da realidade, que sequer notou o que acontecera até o momento em que se vira incapacitado de continuar seus ataques. Aos poucos, como memórias antigas que repentinamente retornavam, as sensações de seus golpes em Heike - que ainda não reconhecia em meio à loucura -, pareciam surgir. Os socos formigaram suas mãos, com um calor que deveria ter surgido muito antes, e a dor de ter o corpo preso naquela posição desconfortável finalmente se encaixou com a realidade, fazendo Nero reclamar em sons guturais, tanto pela sensação, quanto pela incapacidade de se defender daquele inimigo que tinha sobre si.

    Ouvira o grito, porém, assim como todas as outras coisas que escutava, não conseguira distinguir o que era e de onde vinha. Apenas sabia que era hostil, a mente incapaz de processar o desespero daquele que tentava contatá-lo, incapaz de sequer trazer importância ao que lhe era dito. Seu foco era único: Precisava se soltar. Precisava se livrar da ameaça, precisava fugir dali. Tudo parecia demais, tudo era muito e aquilo precisava parar. A dor precisava parar. Sua garganta precisava parar de queimar. Precisava parar.

    Forçando todo o peso pra cima, o guerreiro tentou ao máximo forçar o pé contra o chão. Gastara um bom tempo roçando os joelhos, impulsionando terra para trás com os dedos dos pés, machucando as unhas com as pequenas pedras que se misturavam ao solo. Sequer soube o que o movia a agir daquela maneira, ao ponto de, sem saber o que fizera, sentir a terra ceder sob si, uma rachadura lhe dando espaço suficiente para cair junto à estranha ameaça. No entanto, e para sua "sorte", chegara ao chão antes do corpo que pesava menos e cheirava estranho - conseguira identificar pouco no meio da bagunça de odores da floresta -, e com tempo para impulsionar a perna para o alto com força desmedida, em uma agressão direta àquele que caia ao seu encontro. Nero chutou o outro guerreiro para fora da cratera sem piedade.

    Respirando pesado, o taurino buscou cegamente a terra, tocando as partes mais rígidas com pouca precisão. A dor estava afetando ainda mais suas capacidades, nublando a conexão que tinha com seus movimentos. Ainda conseguia passar suas vontades, mas elas não eram suficiente para evitar que caísse algumas vezes, em suas tentativas de escalar as paredes recém-formadas. Frustração. Mais uma vez gritou, sentindo um súbito desespero crescer dentro de si. Não conseguia sair. Estava preso. Estava escuro. Estava doendo. Nero socou as paredes e o chão tremeu. Ele repetiu, nervoso, assustado, e a intensidade do tremor aumentou. Aquilo não iria ajudá-lo.

    O corpo do taurino tremeu, e escorregou para o chão. Novamente Nero empurrava a terra com os pés, mas, dessa vez, para que pudesse se encolher contra a parede mais próxima. Algo saia de si, sentia um fluxo de energia fugindo, descompassado como aqueles que não se conectavam dentro de si e faziam a dor mais forte. Porém, esse ia para outro lugar, e levava consigo parte das sensações que o machucavam tanto. Levava o medo e o súbito desespero em ser um alvo fácil, em estar desprotegido e preso num absurdo de sons, cheiros e sensações.
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    Re: [#02] Turno livre - Tribo de Nero

    Mensagem por Heike_Walker em Qui Dez 15, 2016 8:23 pm

    O taurino continuou emitindo sons indefinidos diante de si, se debatendo como um animal preso por todo o momento. Heike não entendia o que estava acontecendo com ele, porque ele continuava a agir daquela forma. - Nero... Nero! O que tá acontecendo!? - Voltou a questionar repetidas vezes, começando a ficar ainda mais nervoso do que antes a medida que seguia sendo ignorado, como se suas palavras sequer estivessem chegando aos ouvidos dele.

    Precisava realmente encontrar a Órion. Tinha alguma coisa muito errada com o maior e o loiro não conseguia vê-lo daquela forma sem ficar agoniado. Mas como fazer para conseguir ir até a irmã dele naquele estado? Talvez... Devesse amarrar ele com alguma coisa? Ou nocauteá-lo com força o suficiente para fazê-lo desmaiar?

    De uma coisa Heike sabia: não podia deixar o companheiro daquele jeito.

    Porém, enquanto tentava pensar em algo realmente eficaz para lhe ajudar naquela situação desesperadora, o líder continuava se movendo de um jeito estranho abaixo de si, e de repente de um segundo para o outro o solo sob de ambos estalou num barulho curioso pouco antes de se abrir em um movimento violento e a gravidade engolir os dois numa grande cratera. Assustado com aquele acontecimento súbito, o ariano tentou se agarrar no maior para de algum modo tentar amenizar a queda dos dois, mas antes que pudesse fazer qualquer coisa Nero se revirou no ar e o atingiu com um golpe poderoso das pernas, lhe lançando para o alto com força impressionante.

    As coisas perderam o foco para Heike nos próximos segundos. Quando deu por si estava no chão aos pés de uma árvore, um zumbido irritante na cabeça causado pela dor do golpe que recebera no tórax. Respirando pesado, piscou algumas vezes e tentou se sentar, apenas para sentir uma fisgada na lateral do peito forte o suficiente para lhe deixar nauseado. Tateando o local, o ariano deixou um sopro de riso frustrado escapar ao se dar conta de que provavelmente o taurino tinha lhe quebrado algumas costelas com a violência que o atingira. No exato instante que pensou no líder ouviu um novo grito, sobressaltando-o ao que o chão todo tremia uma vez e depois outra. O que diabos estava acontecendo? Eram terremotos? Heike nunca tinha presenciado nenhum em todo o tempo que estivera na tribo, não entendia o que estava acontecendo. Independente do que fosse precisava tirar Nero dali, pensou ao que via uma grande árvore escorregar para dentro da cratera em resultado dos tremores, tampando parte dela.

    Ignorando a dor, o guerreiro gritou o nome do outro e estava se levantando quando uma onda de pânico lhe atingiu. Engasgando, se agarrou contra uma grande raiz e tremeu, respirando com dificuldade ao que olhava ao redor assustado. O que..? O que estava acontecendo? Sem entender absolutamente nada, começou a se sentir sozinho e vulnerável e a dor que sentia na lateral do peito foi se alastrando por todo o corpo. De repente a mente foi invadida por uma série pensamentos que não eram seus, de uma infinidade de sons e cheiro que nunca antes tinha sentido ou escutado. Foram-se longos minutos para que entendesse que aquilo não era seu. Não era. De algum modo estava ligado a mente do moreno dentro da cratera. Não sabia como ou porque, mas tinha certeza que era dele que tudo aquilo vinha.

    Com os olhos lacrimejando pela intensidade de tudo aquilo, Heike respirou fundo e limpou as lágrimas do rosto, se erguendo e indo até a beirada da cratera. Dali onde estava pôde ver apenas os pés de Nero, que se enfiou em um buraco ali dentro.

    O loiro queria se enfiar num buraco também. Queria apenas se esconder de tudo e todos, queria que a dor fosse embora, queria não sentir tanto. Sabia que aquilo tudo vinha do taurino, mas era tão forte e tão intenso que era difícil distinguir tais sensações de si mesmo. Se encolhendo na beirada da cratera, respirou fundo e fechou os olhos por um momento, se concentrando e tentando não emitir nenhum som. Precisava tirar Nero dali antes que toda aquela terra resolvesse desabar em cima dele. Precisava dar um jeito de fazer toda a dor que ele sentia passar, mas não sabia como.

    Nero... - Chamou num sussurro, então depois de alguns segundos tomou impulso e pulou lá dentro. Por conta da dor, das próprias sensações e as intensas do moreno o deixando desnorteado, a queda não foi bonita. Heike acabou caindo de mal jeito sobre as pedras, rolando para o lado e derrubando outras ao cair sobre a terra. Ali no chão uma risada estrangulada escapou os lábios ao que de repente uma onda de medo, apreensão e prontidão o invadiu. Nero tinha lhe percebido então? Piscando, se sentou com certo esforço e encarou o guerreiro de olhos fechados longamente, mantendo uma certa distância. O que devia fazer agora? Ele parecia tenso e acuado, provavelmente prestes a atacar se chegasse muito perto. - Nero... - Chamou de novo, mesmo sabendo que ele provavelmente não lhe escutaria como nas outras vezes. - Nero sou eu... Sou eu, o Heike, Nero... - Sussurrou, continuando onde estava e se sentindo inútil. Talvez devesse deixar ele se acalmar? Mas ao mesmo tempo estava com receio de que outro tremor soterrasse ambos.

    Nero, sou eu... - Disse num fio de voz, exasperado. - Me escuta, seu touro imbecil, a gente precisa sair daqui... - Continuou, engolindo seco e se aproximando apenas um pouco. Não seria bom se ele ficasse nervoso e violento ali dentro, por isso hesitou onde estava e engoliu seco novamente, permanecendo imóvel por alguns minutos. De algum modo o líder não podia lhe escutar direito e nem ver, isso já estava claro, então Heike tinha que achar alguma forma de mostrar que estava ali sem assustá-lo. Só que não sabia como. Então após longos momentos tensos tentando pensar em alguma alternativa, resolveu voltar a se aproximar para tocá-lo devagar.

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    Re: [#02] Turno livre - Tribo de Nero

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      Data/hora atual: Sex Ago 18, 2017 9:53 pm